Falando Sobre… | Survivor: Game Changers

No dia 24 de maio, foi ao ar o episódio final da 34ª temporada do popular reality de sobrevivência da CBS, Survivor. Entre altos e baixos, o ciclo se conclui e nos deixa um gosto amargo na boca. Infelizmente, Game Changers foi apenas uma sombra do que poderia ter sido.

A temporada se ergueu em um gigante pedestal ao afirmar que os 20 castaways escolhidos para embarcar na aventura e brigar pelo título de Sole Survivor eram game changers. Com um termo tão forte como esse – que significa “revolucionários”, pessoas que mudaram o jogo –, as expectativas foram lá em cima e, no final, é difícil dizer até que ponto Survivor cumpriu o que prometeu. Com um elenco bastante diverso, onde poucos de fato tinham credenciais para serem chamados de game changer, a temporada se vendeu apostando em grande jogadas, estratégias arriscadas e twists nunca vistos.

A pre-merge foi um prato cheio para qualquer fã de Survivor. Mesmo com deslizes na edição, os primeiros episódios conseguiram imprimir essa aura revolucionária que a temporada se propôs a passar. Grande parte disso é por conta de Sandra Diaz-Twine, a única pessoa a vencer duas vezes na história do programa. Com sua personalidade inconfundível e lógica impecável, Sandra movimentou o início do jogo, mandando e desmandando nas tribos em que fez parte e dando confessionários ótimos. Mesmo não conseguindo ir longe dessa vez, Sandra deixou sua marca na temporada.

Aliás, os jogadores do elenco que eram considerados grandes ameaças foram todos eliminados antes da merge. Esse é o grande demérito de um elenco desbalanceado como esse. Com Ciera Eastin, Tony Vlachos e J.T. no jogo, quem vai se importar em eliminar Hali Ford, por exemplo? Essa desvantagem foi fatal para os favoritos do público, que foram eliminados um atrás do outro nas primeiras semanas.

O gameplay, por sua vez, girou bastante em volta dos famosos “big moves“. Já tem algumas temporadas que essa moda vem se instalando em Survivor, tanto por parte dos jogadores quanto pelas produção – que inventa twists, vantagens, novo formato do júri e tudo o que for necessário para mudar a dinâmica do jogo. Do ponto de vista televisivo isso é ótimo, pois somos presenteados com grandes cenas – como o Conselho Tribal que eliminou Malcolm Freberg –, mas isso também acaba tornando Survivor cada vez mais inorgânico.

A grande verdade é que existem muitas temporadas incríveis de Survivor que não se apoiam em twists e na ideia de “big moves“. Game Changers usa esses elementos como o novo padrão e, na tentativa de chocar o público, o jogo em si acaba ficando cada vez mais engessado e robótico. Mas, nem tudo foi ruim. Ainda que Game Changers não tenha nem de perto o mesmo star quality das outras duas temporadas all-stars anteriores – Cambodia e Heroes vs Villains –, ainda houve momentos memoráveis.

A jornada de Cirie Fields é um desse momentos. Desde sua primeira aparição no show, lá atrás na 12ª temporada, Cirie encanta com sua personalidade e, especialmente, com o elevadíssimo jogo social e estratégico que ninguém esperava de uma mulher mais velha, sem experiência nenhuma em vida selvagem. Esta temporada, Cirie deu aula mais uma vez e mostrou que ainda tem energia para jogar mais quatro temporadas, se for o caso. A grande tragédia foi sua péssima eliminação, em um Conselho Tribal histórico onde cinco das seis pessoas restantes estavam imunes – Cirie foi eliminada por default, sem nenhum voto contra ela. Era apenas a única desprotegida. Esse feito aconteceu por conta da legacy advantage, que vale uma imunidade individual. Um exemplo claro de como Survivor new school funciona: twists desnecessários afetando o jogo de maneira inevitável.

Outras pessoas também surpreenderam: Sierra Dawn-Thomas, a vaqueira de Worlds Apart que ninguém ligava, retornou com sangue nos olhos e mudou seu jogo anterior de uma forma tão drástica que foi eliminada por ser uma ameaça; Debbie Wanner, de Kaôh Rōng, voltou mais pirada do que nunca e nos rendeu cenas incríveis, tanto como personagem quanto como estrategista (beijos, Ozzy); Zeke Smith e Jeff Varner, por sua vez, surpreenderam com o Conselho onde o primeiro é exposto pelo segundo, tendo sua transexualidade revelada – um acontecimento que gerou discussões por semanas, com uma cobertura da mídia que Survivor já não tinha por anos.

A vencedora da temporada, Sarah Lacina, de Cagayan, merece os parabéns. Foi a pessoa no elenco que realmente abraçou o tema e buscou corrigir e mudar seu jogo anterior, na expectativa de se tornar uma game changer. Tinha vantagens, um ótimo social, posição invejável e flipava para esquerda e direita sem ganhar alvo de ninguém. Fez a segunda chance valer a pena. Sua falta de carisma ou qualquer traço de personalidade deixa sua jornada um tanto quanto desinteressante, mas o crédito ela merece por sair desta temporada com o título.

Survivor: Game Changers não foi o que esperávamos de um all-stars, entretanto, foi capaz de entregar momentos icônicos e manter vivo em todos nós o amor pelo reality. Só nos resta esperar o que essa new school ainda tem a nos oferecer.

Colaboração especial de Jordan Souza