Fora de Cena | A Onda e Kramer vs. Kramer

Não, a Fora de Cena não enlouqueceu. Está é uma edição especial em homenagem ao Dia do Advogado e do Estudante, que traz dois filmes, cada um tratando de uma dessas temáticas. Ambas são até hoje muito exploradas no universo cinematográfico, até mesmo por apresentarem muitas vezes casos reais, por isso não foi fácil escolher apenas um representante de cada.

 

A Onda (2008)

É muito difícil, em um filme com a temática escolar, falar dos alunos sem falar de seu professor, afinal um não tem significado completo sem o outro. A Onda é a prova concreta do quão longe alunos podem chegar graças à influência de seu professor, tanto para o bem, quanto para o mal. Este filme, não por coincidência alemão, nos apresenta a história de Rainer, um professor de ensino médio que precisa explicar para seus alunos o conceito de Estado Autocrático. Incentivados pelo professor, os alunos devem criar sua própria autocracia, o que acontece com sucesso primeiramente apenas em sala de aula, mas depois em toda a escola e até mesmo fora dela. A situação começa a sair do controle quando a autocracia criada pelos alunos se aproxima cada vez mais a da Alemanha Nazista.

Como dito anteriormente, por mais que haja aqueles que não prestem atenção, um professor carismático que saiba utilizar as palavras corretas é capaz de influenciar até o mais disperso dos alunos, de modo que até quando não estão mais na escola se lembrem dele. O professor é responsável pela formação dos alunos, e o cuidado com a informação que transmite deve ser grande. As intenções do professor eram boas, ele nunca poderia imaginar que seria levado tão a sério, mas os alunos se empolgaram demais, tomaram atitudes sem o seu consentimento e quando foi se dar conta já era tarde demais.

Escolhi tratar deste filme aqui porque seria muito fácil trazer um outro que mostrasse a superação de um aluno, ajudado por um professor incrível ou por um parente. São histórias bonitas e que merecem respeito, mas não são as únicas que merecem atenção. Há o outro lado. O lado que deu errado. As boas intenções de um formador de opiniões que se viraram contra ele. O entusiasmo dos alunos que se afastaram demais da realidade. Este filme desperta certa contradição em nós. O final do professor, como bem se imagina, não é muito bom para sua carreira, mas ele só estava fazendo seu trabalho. E os alunos também só estavam seguindo os ensinamentos de um professor. Talvez haja alguns temas que são melhor estudados apenas na teoria do que na prática.

 

Kramer vs. Kramer (1979)

Um dos filmes mais marcantes dos anos 1970, este emocionante drama conta a história de Ted Kramer (Dustin Hoffman), um executivo que valoriza mais o trabalho do que a família, até que sua mulher, Joanna (Meryl Streep), decide se divorciar. Deixado para cuidar sozinho de seu filho pequeno, Billy, Ted acaba finalmente formando laços com a criança. Porém, Joanna retorna e exige de volta a guarda integral do menino. Assim começa uma longa e difícil batalha jurídica pela custódia de Billy, na qual os pontos de vista do pai e da mãe serão valorizados e confrontados. Um grande clássico, vencedor de cinco Oscars (incluindo os prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor e de Ator e Atriz Coadjuvante para Hoffman e Streep).

É um filme que pode ser divido em três partes: o drama familiar no início, uma dramédia no momento em que Ted precisa lidar sozinho com o filho e o momento mais tenso, a disputa judicial. Os relacionamentos são importantes, assim como a maneira que as personagens se configuram. É possível entender o lado de Joanna, pois Ted realmente só tem olhos para o seu trabalho. Da mesma forma conseguimos nos emocionar com a evolução do relacionamento entre pai e filho, que precisam juntos superar a ausência da mãe, peça imprescindível para aquele ambiente familiar.

Se hoje a sociedade enxerga com naturalidade – pelo menos, com maior tolerância – a “inversão de papéis” do homem e da mulher perante o meio em que vivem e no próprio microcosmo familiar, isso se deve a um gradual processo de amadurecimento moral dos indivíduos que a compõem. Kramer vs. Kramer teve esse papel conscientizador de massas, permitindo a naturalização do divórcio de diversas constituições de famílias – embora ainda haja preconceito.

A discussão proposta pelo diretor Robert Benton funcionou para oferecer aos espectadores um ponto de vista ainda mais objetivo sobre a aquela nítida mudança no seio social: através de um homem que passou a aceitar a quebra de seu padrão familiar, extraindo disso a oportunidade que estava desperdiçando à medida que seu filho crescia e ele não estava lá para acompanhar seus passos. Ted Kramer é um personagem tão complexo – qualidade esta que também dependeu da atuação sutil e orgânica do ator – e, por isso, trata-se de uma produção tão cativante que merece ser vista e lembrada.