Fora de Cena | Labirinto – A Magia do Tempo

Clássico da Sessão da Tarde, Labirinto – A Magia do Tempo completou, em 2016, 30 anos desde seu lançamento. Apesar de ter sido um completo fracasso nas bilheterias, o que desmoralizou completamente seu diretor, Jim Henson, a obra conta com um grande apreço por um considerável número de pessoas, eu inclusive, rapidamente configurando-se como um filme cult que acabou gerando mangás e graphic novels ao longo dos anos. Dito isso, a crítica da época não recebeu o longa-metragem tão duramente, especialmente considerando seu visual. A grande questão é se os fantoches criados em 1986 se sustentam até hoje.

A trama gira em torno de Sarah (Jennifer Connelly no início de sua carreira como atriz), uma garota que é colocada para cuidar de seu irmão bebê enquanto seu pai e sua madrasta saem de casa. Desde o início a protagonista já vive em seu próprio mundo de conto de fadas, repetindo falas de um livro denominado O Labirinto, que, ao que tudo indica, ela própria escreveu. Sua vida se torna uma verdadeira fantasia, contudo, quando irritada com o choro da criança, ela deseja que duendes o levem para longe. Dito isso, o rei duende Jareth (David Bowie) acata seu pedido e cabe a Sarah desvendar o labirinto dessas criaturas a fim de resgatar seu irmão.

Desde a primeira aparição dos duendes em Labirinto, eles já conseguem nos cativar. São construídos como criaturas engraçadas e há uma grande expressividade em seus olhos. O movimento de suas bocas também chama a atenção e dão um toque de realidade às criaturinhas. Sim, sabemos que são fantoches, mas quem disser que vê um CGI hoje em dia sem saber o que é, estará mentindo. Neste quesito, o filme se sustenta solidamente até os dias de hoje. A utilização, principalmente, de efeitos práticos não deixa a desejar e desde esses seres até o desenho de produção do labirinto em si são impressionantes – poucas são as instâncias que percebemos um chroma key e não há como se deixar levar por alguns efeitos, como a entrada escondida no trecho inicial do longa. A direção de Jim Henson, aliada com a direção de fotografia Alex Thomson, naturalmente, fazem muito do trabalho com inúmeros truques de câmera, transmitindo a constante mutação daquele lugar.

Não podemos deixar de realçar o clímax da obra, baseada no quadro Relatividade, de M.C. Escher, que nos traz uma sequência emblemática pautada quase que exclusivamente em um criativo trabalho de fotografia. Bowie aqui se faz essencial e sua personificação peculiar de Jareth, que traz muito da persona que fora Ziggy Stardust, dá um toque efetivamente sobrenatural ao personagem, o que nos faz acreditar no que acontece na tela. Connelly, por outro lado, não faz mais que seu papel, nos trazendo uma atuação típica de adolescentes nos anos 1980, com um excesso de drama habitual de uma atriz ainda em formação.

O roteiro de Terry Jones não ajuda muito a personagem, ainda que a construa como uma garota forte e corajosa. Temos aqui uma forte influência de O Mágico de Oz e Alice no País das Maravilhas, com a protagonista sendo ajudada constantemente por seres fantásticos e estando perdida na maior parte do tempo. Além disso, ela é construída, logo na sequência inicial, como uma espécie de princesa, mas aqui há uma inversão: é ela que precisa resgatar alguém do castelo do antagonista.

Outro aspecto que garante o caráter único da obra são os números musicais de David Bowie, com destaque para “Magic Danceque certamente permanece em nossas mentes segundos após ser escutada pela primeira vez. E também é acompanhada de uma sequência emblemática com uma quantidade gigantesca de fantoches em cena, além do bebê, que é surpreendentemente carismático, e, é claro, de Bowie se entregando para a música. Todos esses elementos tornam o filme único e um eterno clássico.