Crítica | Castelo de Areia

O cinema contemporâneo nacional presenteou o mundo nos últimos dez anos com cineastas absolutamente excepcionais, e por isso mesmo é triste perceber que o nosso velho complexo de vira-lata ainda insiste em julgar produções audiovisuais brasileiras com base nas comédias sem graça do selo Globo Filmes. Logo, não é surpresa para ninguém que mais recentemente tenha-se instaurado um sistema de exportação de diretores tupiniquins para Hollywood e seus moribundos selos de criatividade. Foi assim com José Padilha (Tropa de Elite, Robocop), Afonso Poyart (2 Coelhos, Presságios de um Crime) e agora está sendo assim com o promissor Fernando Coimbra (O Lobo Atrás da Porta) e seu mais novo longa Castelo de Areia.

De antemão, citei um trabalho nacional e outro internacional de cada diretor exclusivamente para ressaltar que, infelizmente, nenhum deles conseguiu resgatar os feitos que despertaram a curiosidade da crítica enquanto estavam trabalhando sem o malho dos estúdios hollywoodianos nas costas. Assim em Castelo de Areia, Coimbra repete todos os erros que relegaram o Robocop de José Padilha ao esquecimento quase que instantâneo após o seu lançamento.

Na trama genérica do filme, o jovem militar Matt Ocre (Nicholas Hoult) vai com uma equipe até o Iraque durante a guerra de 2003 para consertar um sistema de água na vila de Baquba. Mesmo o povo de Bagdá vendo os americanos como heróis, os moradores de Baquba em particular não gostam da presença daqueles homens, que precisam aos poucos convencer a todos que foram ajudar quando um iminente conflito explode nos arredores do local. Começa então uma exaustiva e ufanista demonstração de como os iraquianos não deveriam ter julgado todos os combatentes que estavam lá em função das ações de outros e tudo aquilo que qualquer longa do gênero já entregou inúmeras vezes.

A despeito da boa química entre o elenco de combatentes vividos por Hoult, Luke Evans, Henry Cavill e Glen Powell, nada mais em Castelo de Areia é digno de nota. O comando de Coimbra durante as sequências de ação é tão burocrático e apático que na mesma hora fiquei com vontade de rever os momentos mais dramáticos do excelente Até o Último Homem de Mel Gibson. E se as cenas mais emocionais do filme conseguem funcionar em tela é somente por conta da simpatia que a relação daqueles homens despertam na gente durante a meia-hora inicial.

Não dá para de imediato dizer que Fernando Coimbra ficou somente na promessa depois do assustador O Lobo Atrás da Porta só por conta dessa empreitada capenga, porém fica aquele gostinho amargo de decepção. Continuo achando Hollywood um veneno para cineastas estrangeiros que estão no início da carreira, e Castelo de Areia é mais um ponto nessa curva. Fica então o questionamento: será que se valorizássemos mais a prata da casa esses erros se tornariam somente ocasionais?