Animaction | As Memórias de Marnie

É uma característica do ser humano demonstrar um certo descontentamento com o presente. Muitas vezes acabamos por exaltar o passado, quando tudo era mais simples e melhor. Da mesma forma que manifestamos isso em nossa realidade, manifestamos também nas artes em geral, e esse filme é com certeza a mistura perfeita desse sentimento, de certo modo melancólico, e da já conhecida fantasia do Studio Ghibli.

Agora, se você acha que a personagem principal é a Marnie, está enganado. Não posso negar que ela é de vital importância para a história, mas nossa estrela aqui é outra. E pode-se dizer que essa estrela é meio apagada. Anna, uma menina de 12 anos, de longe a personagem mais apática que já vi nos filmes do Studio Ghibli. Devo admitir que, para mim, foi difícil simpatizar com ela, já que diferentemente de uma Chihiro ou princesa Mononoke – exemplos de coragem e persistência -, Anna não demonstra nenhum interesse em nada ao seu redor. Essa quebra de expectativa em relação à personagem principal que, seguindo o padrão, saiu de uma personalidade forte para uma quase nula, por mais interessante que seja, foi, para mim, muito complicada. Cheguei a, mentalmente, chamar a Anna de chata diversas vezes enquanto assistia.

As coisas começam a mudar quando a jovem precisa passar um tempo no interior por questões de saúde. Lá ela conhece essa menina chamada Marnie e sua bela casa. Pela primeira vez vemos Anna de fato interessada em alguma coisa. Ela fica encantada pela beleza de Marnie, quer conhecê-la cada vez mais. E assim a amizade das duas cresce, e isso ajuda Anna a ter vontade de sair de casa, passear e até mesmo se dedicar a seus desenhos. Mas – como tudo na vida tem um “mas” – há um grande mistério em torno de Marnie. Sua casa, ora cheia de vida e de luzes, ora completamente vazia, e a própria menina que por vezes desaparece, deixam Anna completamente intrigada e muito triste e confusa.

Aos poucos vamos entendendo que Anna possui um outro tipo de força e que passará, graças à Marnie, a encarar a vida de uma outra maneira. É realmente uma história muito bem construída, que diverte e emociona. Mesmo que a fantasia esteja fortemente presente, o simbolismo da amizade das duas meninas, o amor que há entre elas, é realmente algo real e muito belo. Assim como Marine e Anna, em nossas vidas há sempre uma pessoa que entra em cena para nos animar e nos mostra que vale a pena viver. Por isso tenho certeza que essa história é capaz de encantar a todos.