6º Olhar de Cinema | Do Clássico ao Contemporâneo

O Olhar de Cinema possui diversas mostras além da Competitiva de curtas e longas-metragens. Esses espaços muitas vezes reservam experiências cinematográficas únicas. São filmes de todo o mundo que se encontram e permitem ao público entrar em contato com diferentes formas de se fazer cinema além da qual estamos acostumados a ver nas grandes salas. Seja ficção ou documentário, a criatividade humana não tem fronteiras, e mesmo nas diferenças culturais e estéticas encontramos semelhanças, o que permite a possibilidade do diálogo e da troca de ideias. O cinema enquanto arte encontra no Olhar de Cinema uma vitrine e uma oportunidade de gerar reflexão e debate sobre questões atuais e também relembrarmos o passado em obras que se tornaram clássicos eternos e atemporais. Neste post quero compartilhar um pouco o que acompanhei pelo festival e passar algumas dicas para essa reta final. Nesta quarta-feira (14) à noite conheceremos os vencedores das mostras, mas quem ganha mesmo é o público e o cinema.

Mostra Olhares Clássicos | Viagem ao Fim do Universo (1963)

Mostra reservada para a exibição de filmes que deixaram sua marca na história do cinema. Desde clássicos nacionais, como Conversas no Maranhão, de Andrea Tonacci (com reprise hoje, 14, às 18h45, no Espaço Itaú 2), até Viagem à Lua, de George Meliès, a mostra trouxe diversas produções de todos os cantos do globo.

Escolhi, por minha afinidade com a ficção científica, um dos poucos filmes desse gênero da programação, Viagem ao Fim do Universo, de Jindrich Polák. Filme tcheco de 1963, a narrativa conta a história dos tripulantes da nave Ikarie XB, que no ano de 2163 viajam para a estrela Alpha Centauri (a mais próxima de nós depois do próprio sol) procurando vida. Quem está acostumado a assistir muitas obras de ficção científica vai perceber como este filme influenciou diversas obras. Armas lasers, robôs com inteligência artificial suspeitas, a solidão e o desespero do espaço sideral, tudo que muitas produções exploram depois está em Viagem ao Fim do Universo. Com a simbólica frase “A terra já era” logo em seu plano inicial, o filme retrata uma época que temia uma guerra nuclear. Entretanto, apesar do medo, a existência humana se sobressai e a história tem um tom otimista. Não à toa é um clássico que todos os fãs do gênero devem assistir.

Mostra Outros Olhares | Alipato – A Brevíssima Vida de um Malandro (2016)

Aqui temos uma mostra que busca variedades estéticas. Escolhi, por recomendação, assistir a produção filipina e germânica Alipato – A Brevíssima Vida de um Malandro, de Khavn de La Cruz. Esta ficção apresenta a vida de uma gangue de garotos pobres das Filipinas que cometem crimes e vivem na miséria. Uma forte crítica à desigualdade social do país asiático e de sua capital, o filme não poupa o espectador de exposições gráficas brutais de violência, seja com adultos ou crianças, e expõe uma realidade de pobreza que só não atinge o mais frio dos espectadores. Com linguagem cinematográfica alternativa, quebrando a quarta parede e abusando de humor ácido, o filme pode ser rejeitado por um público mais sensível, mas aqueles que superam o choque de certas cenas enxergam uma obra relevante que merece destaque entre as produções do festival.

Mostra Foco | Anocha Suwichakornpong

Mostra dedicada a um ou uma cineasta jovem que se destaca na atualidade, a deste ano foi reservada para a cineasta tailandesa Anocha Suwichakornpong. Além de curtas e longas-metragens, Suwichakornpong veio ao festival para uma masterclass e para debater sua mais recente produção, Dao Khanong (com exibição hoje, 14, às 16h15, no Espaço Itaú 2). Acompanhei a sessão dos curtas Anoitecer, Almoço, Graceland e Como. Amor. Verdadeiro (com exibição hoje, 14, às 18h45, no Cineplex Batel 4), filmes do início da carreira da cineasta que já demostram sua sensibilidade para entender dilemas humanos e adaptá-los para histórias no cinema.

Mostra Olhar Retrospectivo | F. W. Murnau

Mostra dedicada a um importante nome da história do cinema. Desta vez, o escolhido foi o mestre F.W. Murnau, cineasta alemão, um dos principais nomes do expressionismo no cinema da década de 1920. Com exibição de diversas obras de sua filmografia, tive a oportunidade de ver três delas, as três na lista dos filmes mais importantes de todos os tempos: Aurora (1927), A Última Gargalhada (1924) e Nosferatu (1922). Esses filmes são aulas de cinema, direção, roteiro, fotografia e montagem.

Aurora, que conta a história de um homem que decide matar sua mulher para fugir com outra, se mostra uma bela alegoria do conflito entre o bem e o mal que existe dentro de nós. Impossível não se emocionar com tamanha beleza poética de um filme com 90 anos de idade. A Última Gargalhada mostra o dom de Murnau em contar histórias com imagens e de emocionar o espectador, da alegria à tristeza com a vida de um homem idoso que vai do céu ao inferno quando perde seu emprego. Obrigatório para roteiristas iniciantes e experientes, além de mostrar a consciência de Murnau sobre o poder do cinema. Por fim, Nosferatu, clássico absoluto em todas as listas de cinéfilos, é uma obra com toda a sutileza do terror e humor provocados pela figura do Conde Nosferatu. Inspiração para diversas histórias que vieram depois, este filme de 95 anos é atemporal. Esses meus breves comentários são muito insuficientes para falar dessas obras de F.W. Murnau, então recomendo a todos que não viram a assistirem essas obras.

Exibições Especiais | Modo de Produção (2017)

Como o nome já diz, é uma mostra reservada para filmes que ganharam destaque e tratam de temas importantes. Dentre os filmes da mostra, assisti Modo de Produção, documentário de Dea Ferraz que registra a rotina no Sindicato de Trabalhadores Rurais de Ipojuca, em Pernambuco. Em tempos de reformas trabalhista e da previdência que prejudicam os trabalhadores, o filme, que foi gravado em 2013, demostra como já é difícil para um trabalhador rural conseguir aposentadoria atualmente. Pensando a condição humana e com um roteiro inteligente, esse documentário ganha um peso gigantesco no contexto atual, sendo necessário ser visto e debatido. Acompanhamos os relatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais e as dificuldades encontradas no caminho dessas pessoas. Um dos filmes que mais me emocionou.

Ainda ocorreram as mostras Pequenos Olhares (voltada para o público infantojuvenil), Novos Olhares (radicalidade nas propostas estéticas) e Mirada Paranaense (foco na produção do estado do Paraná). Esta quarta-feira, 14, é o último dia para ver diversas produções, já que o festival se encerra na quinta-feira, 15, com a reprise dos vencedores. Confira então as dicas do que assistir:

14h – Olhares Clássicos | Curtas – Visionários, Viagem à Lua, Momento Assustador, Couro de Gato, Monangambee

14h – Outros Olhares | Meu Corpo é Político (Alice Riff)

16h15 – Foco | Dao Khanong (Anocha Suwichakornpong)

16h15 – Competitiva | El Mar La Mar (Joshua Bonnetta, J.P. Sniadecki)

16h30 – Exibições Especiais | O Que Me Motiva II (Ignácio Agüero)

18h30 – Olhares Clássicos | Conversas no Maranhão (Andrea Tonacci)

19h30 – Olhar Retrospectivo | Tartufo (F.W. Murnau)

21h – Encerramento | Baronesa (Juliana Antunes)