Crítica | Death Note

Death Note é um dos mangás mais populares do Japão, tendo uma história que mistura muito bem os elementos do suspense e algumas pitadas de terror. Com uma trama que prende desde o início e personagens complexos, era de se imaginar que uma hora iria surgir uma versão americana do clássico japonês.

Mas essa versão demorou. Foram anos até um estúdio assumir a história, que teria tudo para ser uma das adaptações mais populares da cultura japonesa no outro lado do mundo. Já tiveram alguns live-action japoneses, mas nada feito exclusivamente para o ocidente. Em 2017, finalmente, a Netflix lançou o primeiro live-action americano dirigido por Adam Wingard. Mas o que tinha tudo para ser a alegria dos fãs, se tornou a grande tristeza.

Bom, antes de começar, vou deixar algo bem claro. Sou muito fã do mangá/anime, porém não tenho nenhum problema com adaptações que fujam da obra original, mas que ainda funcionem como filme, independente de sua fidelidade. Infelizmente, esse não é o caso deste longa. Para quem não conhece, Death Note conta a história de Light Turner, um menino do ensino médio que em um certo dia acaba encontrando um caderno sobrenatural que tem o poder de matar pessoas. O humano que tiver o seu nome escrito nele acaba morrendo. Light, movido pelo senso de justiça, decide punir criminosos e se tornar uma espécie de Deus, e acaba ficando conhecido pelo nome de Kira (assassino, em japonês). Porém, as inúmeras mortes começam a ser investigadas por L, considerado o melhor detetive do mundo, o que acaba dando início a uma rivalidade de dois gênios: Kira vs L.

Contudo, o filme não foca nesta batalha e sim no romance de Light com Mia, sua namorada, o que acaba sendo o principal defeito da adaptação. O problema não é a falta de similaridade com a obra original, que, aliás, é bem diferente, e sim a falta de personalidade dos personagens e um roteiro simples, que tem em mãos uma trama que teria tudo para gerar diversas discussões a respeito da pena de morte, do sistema carcerário e da própria índole dos seres humanos, mas que acaba priorizando um romance de adolescentes. A todo momento o filme busca romantizar a história de Light, deixando o relacionamento dele com Mia no centro das atenções, enquanto o que realmente deveria importar (as mortes, o conflito de Light e L, as investigações da polícia) fica em segundo plano.

Só para ter noção, há uma cena em que o casal faz sexo enquanto mata alguns criminosos, e durante este momento a trilha sonora, que por sinal é péssima e nem um pouco condizente com a trama, toca uma música pop de fundo. Esta cena já é o suficiente para perceber o quanto o roteiro não se leva a sério com o tema que tem em mãos. Mas quando falamos dos personagens, as falhas ficam ainda mais evidentes. Percebemos uma falta de complexidade na maioria. Nat Wolff faz um Light exagerado, com uma atuação cômica e sem profundidade nenhuma. Lakeith Stanfield é um L caricato, com trejeitos que remetem ao original, mas que o roteiro insiste em tratá-lo como alguém inteligente e superior, sendo que suas ações beiram ao ridículo, principalmente ao final do filme.

Já Margaret Qualley, que interpreta Mia Sutton, é, de longe, a melhor do elenco, sabendo aproveitar os poucos momentos em que o roteiro tenta abordar os crimes como algo relevante na trama. Ela apresenta um papel interessante ao decorrer da história e a atriz consegue transmitir todas as nuances e dilemas da personagem. Aliás, se formos considerar fidelidade, Mia é bem mais parecida com o protagonista do mangá do que o Light do próprio filme. Ela é fria, calculista e não tem limites para alcançar seu objetivo, tudo que Light deveria ser.

Por fim, Ryuk, o shinigami responsável pelo caderno, interpretado por Willem Dafoe, é um ser com personalidade própria e cheio de tiradas que deveriam ser engraçadas, mas não são. Nem é possível avaliar o CGI da criatura, pois a fotografia extremamente escura não permite que o vejamos direito. Claramente um recurso utilizado para esconder a falta de orçamento do longa. Além disso, todos os sustos que o protagonista leva ao ver o shinigami pela primeira vez soam extremamente forçados e só aumentam o nível cômico do filme, o que com certeza não era intenção do diretor.

Infelizmente a adaptação deixou muito a desejar. Mesmo ignorando a obra original, percebemos um roteiro fraco, com personagens mal desenvolvidos e diálogos rasos. De fato, o maior erro do filme foi priorizar o romance ao invés do combate entre Kira e L. É uma pena, pois se esse duelo já ficou popular no mundo inteiro apenas com o mangá e anime, imagina em um filme americano produzido pela Netflix. É, não foi desta vez.

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