Crítica | O Jantar

Certas ficções são tão verossímeis que fazem com que nos sintamos na pele das personagens. Acompanhamos a história com tanta intimidade como se fosse nossa, sofremos e nos divertimos e, em situações extremas, nos questionamos o que faríamos no lugar daquela pessoa. É assim que O Jantar, filme baseado no livro homônimo do escritor holandês Herman Koch, nos faz sentir.

A história gira em torno da família Lohman. Stan, interpretado pelo ainda charmoso Richard Gere, é um político bem sucedido cuja reeleição depende da aprovação de seu mais novo projeto de lei. Ele está atualmente casado com sua segunda esposa, Katelyn (Rebecca Hall), que sabe desenvolver muito bem o papel de madrasta – já que foi responsável pela criação dos três filhos do primeiro casamento de Stan – e o de mulher de um político influente. O outro lado da família é representado pelo irmão mais novo Paul (Steve Coogan), um professor e intelectual com grande inclinação à depressão, e sua esposa, recém-recuperada de câncer, Claire (Laura Linney).

Os dois casais se encontram para jantar em um restaurante extremamente elegante. O que de início parecia apenas um encontro um tanto desagradável entre irmãos que não se dão muito bem, se mostra algo muito mais complicado. A verdade, a qual nos é introduzida em doses homeopáticas, é que os filhos dos dois casais cometeram um crime e agora seus pais precisam resolver como lidar com isso.

O tempo é dividido em três momentos no filme: o presente no qual há o encontro para o jantar, que dura todo o filme, e, no meio disso, flashbacks, ora do acontecido envolvendo os filhos, ora de sua infância, e como Paul encarou mal a doença da esposa. Ele com certeza se apresenta como o elo mais fraco dessa corrente, bastante desequilibrado e sem intimidade com o filho, que por sua vez prefere confiar seus segredos à sua mãe. A estética do filme segue os moldes do restaurante e é completamente elegante e fina, assim como os personagens principais, o que estabelece um enorme contraste com o flashback que envolve os filhos dos dois casais e uma moradora de rua.

Mesmo estando acostumados a esses altos padrões, é interessante notar o sentimento de não pertencimento, principalmente o de Paul, em relação a tudo aquilo. Ele tem aversão ao tipo de vida que seu irmão leva e deixa isso claro. Por mais que seja por vezes muito maçante enquanto pessoa, torna-se um personagem interessante quando, mesmo tendo sido deixado de lado em um primeiro momento, é ele quem coloca um ponto final na situação. Mais interessante ainda foi a opção do roteiro em deixar aberto o final do filme, dando ao espectador a decisão de qual foi a ação tomada por Paul.

Outro aspecto importante a ser ressaltado é a voracidade com que Claire defende seu filho, permanecendo o tempo todo do seu lado. Laura Linney realmente nos entrega uma mãe não apenas dedicada à manutenção daquela família em colapso, mas também completamente obstinada a provar a inocência do filho. Ou melhor, para ela não há o que provar, ele é de fato inocente. Enquanto ela possui o apoio de Katelyn, Stan está decidido a fazer o certo: seus filhos devem enfrentar a justiça. Esse é com certeza um elemento diferencial na história, uma vez que espera-se que um político pense no benefício apenas de sua carreira e de sua família. Stan, pelo contrário, se mostra extremamente incomodado com a impunidade dos filhos e sabe que é preciso fazer com que eles confessem o crime que cometeram. Para isso, está disposto a abandonar todos os seus projetos políticos, até um certo ponto, claro. O filme continua genial em seu desfecho ao nos lembrar que todos esses valores e certezas serão sempre relativos.

Não vale a pena dizer aqui qual foi o crime cometido pelos jovens, afinal esse é o grande mistério de O Jantar que nos é revelado aos poucos, criando um suspense bem-vindo. É fácil ficar chocado com o ato dos jovens quando eles não são nossos filhos ou membros queridos de nossa família. É fácil acusá-los quando não há nenhum envolvimento emocional. Este filme, no entanto, é articulado de tal maneira que nos coloca no lugar daqueles pais e nos faz pensar no que faríamos se aqueles fossem nossos filhos. Também nos faz pensar sobre a marginalização dos moradores de rua e de como são desumanizados. Coloca em cheque as vidas de indivíduos de realidades completamente diferentes e quase que nos obriga a decidir qual merece ser mais valorizada. Ao final cada um terá sua opinião e, é claro, muito o que pensar.