Crítica | Pendular

Pendular é uma complicação em formato de filme. Dirigido por Julia Murat, o longa – como a diretora já ressaltou em recentes entrevistas – é baseado na relação de Marina Abramović (artista e dançarina) e seu ex-marido Ulay, nascido na Alemanha e também artista, só que visual. Não saber que o filme é relacionado aos dois pode te dar a sensação de que as duas horas de duração são apenas mais do mesmo. E saber disso também não mudará em nada sua experiência.

O longa tenta ter seus méritos, já que vivemos em um Brasil muito retrógrado e exposições de artes e corpos nus são vistas com maus olhos, mas, fora isso, a história de Ela e Ele não cativa muito e deixa o espectador entediado, começando pelo fato de que os protagonistas vividos por Raquel Karro e Rodrigo Bolzan não têm nome. São apenas artistas que alugaram um galpão e vivem juntos até o relacionamento ficar impossível, pois eles não se comunicam direito. E, de vez em quando, chamam os amigos para jogar bola por lá, a fim de não serem tão cults como a gente percebe no filme todo.

A primeira cena mostra o casal dividindo o espaço no apartamento para que ela performe suas danças e ele monte sua galeria de arte. Depois, um dos amigos do futebol do casal canta a bola e diz nas entrelinhas que aquela fita vermelha separando o espaço dos dois ia dar problema. E deu. Durante todo o longa se cria uma tensão para que eles briguem por espaço, mas sem falar que é por causa daquele espaço que estão brigando. Os problemas de classe média de Ela e Ele são tão desinteressantes que quem está assistindo percebe o quão distante é aquela realidade do nosso Brasil atual.

Um dos pontos interessantes de Pendular é que o personagem Ele não é tão cult assim como imaginamos e passa o filme todo jogando joguinhos com um adolescente para se distrair. Mas é só isso, nada nele é cativante, muito menos sua obra retratada no longa – já que seu amigo crítico lhe diz que aquilo em que ele está trabalhando é uma bagunça. Em determinado momento, percebe-se também que Ela foi perdendo espaço dentro do galpão que os dois compraram. De tão entediada com sua vida, ela começa a encucar com um fio solto dentro do local e chega até a perguntar sobre isso ao seu cônjuge, que responde que nada daquilo importa. Diga-se de passagem, eles já estão à beira de um colapso no relacionamento aqui e mesmo assim os diálogos continuam surreais.

Vale lembrar também que tudo isso ocorre dentro de apenas um único cenário. Em uma época na qual o cinema é tão frenético, isso transmite a sensação de tédio para aqueles que estão assistindo. A direção é boa, mas quis deixar tudo calmo para se diferenciar das grandes produções, incluindo as brasileiras, e o resultado é tão morno, mas tão morno, que até uma história que poderia ser a mais interessante das duas horas de Pendular se perde no marasmo dos pedantismos do longa, e é tudo resolvido sem mais delongas. O roteiro do filme poderia ter trabalhado mais no emocional do casal após a decisão de Ela sobre ter um filho ou não com seu companheiro, mas, sem mais nem menos, após uma cena que dá a entender que os apaixonados pela vida cult terminaram, o longa acaba do mesmo jeito que começou: sem emoção nenhuma.

Apesar de os atores tentarem tirar leite de pedra, em momento algum a história emociona ou cativa. Até mesmo o garoto que joga online com o artista plástico, inspirado no ex de Abramović, solta uma questão filosófica no meio de uma partida. Pendular não é uma história sobre o Brasil atual, apesar de apelar para que se “viva da arte e do corpo” em sua trama, e também não é uma boa produção em uma época de filmes excelentes como Bingo: O Rei das Manhãs e Como Nossos Pais.