Crítica | Blade Runner 2049

Lançado em 1982, Blade Runner se tornou um clássico da ficção científica. Protagonizado por Harrison Ford, na época em que Han Solo e Indiana Jones o tornaram um astro de Hollywood, o filme dirigido por Ridley Scott esboçava um futuro em que humanos e androides (chamados de replicantes) coexistiam e começavam a entrar em conflito. Em 2017, 35 anos depois, estreia a sequência Blade Runner 2049, dessa vez com Ryan Gosling (La La Land – Cantando Estações) no papel principal e com a direção de Denis Villeneuve (A Chegada). Ridley Scott participa como produtor e isso é um ponto positivo, pois a direção não poderia ter caído em mãos melhores que a de Denis Villneuve.

Logo no começo somos introduzidos ao contexto atual do planeta Terra. Estamos na Califórnia de 2049 e os replicantes ainda existem, dessa vez em modelos novos que são completamente obedientes. Entretanto, alguns dos modelos antigos rebeldes estão foragidos por aí e cabe ao Blade Runner K (Gosling), um replicante de modelo novo, caçar e eliminar esses androides. Na jornada, ele descobre que 30 anos antes uma replicante conseguiu dar à luz a uma criança, o que significaria uma total revolução na forma como esses androides são vistos. Cabe a K encontrá-la, e nessa jornada se desenrola as quase 2h45 de filme.

Blade Runner 2049 usa uma temática de ficção científica para lançar a questão: o que faz de nós humanos? O que é ser humano? O dilema do protagonista é esse encontro com sua humanidade, uma vez que é um androide e sofre segregação por parte dos humanos (numa crítica sobre o momento atual em que nós nos dividimos cada vez mais entre “nós” e “eles”, ou ainda mais individualmente, entre “eu” e “você”). A inteligência artificial dos replicantes é tamanha que podemos nos perguntar se ela realmente é antinatural, uma vez que a natureza permite, através da nossa inteligência, a criação desses seres. K tem uma namorada, Joi (Ana de Armas, Cães de Guerra), que só se personifica em hologramas, entretanto é a personagem mais “humana” do longa ao amar K da forma mais pura possível.

Enquanto isso, humanos de verdade, como a personagem de Robin Wright, chefe de K, são mais severos e autoritários, o que nos leva a outra questão levantada pelo brilhante roteiro de Hampton Fancher (roteirista do filme original) e Michael Green (roteirista de Logan, um longa que também discute o significado de nossa existência): se a humanidade pode criar replicantes com sentimentos como os nossos e que conseguem se reproduzir, poderíamos criar humanos mais “humanos”? Não é uma pergunta fácil de responder. O que seriam esses humanos “mais humanos”? Mais empáticos? Que tivessem mais compaixão? O que iríamos querer que esses “super-humanos” fossem? Ou ainda mais complexo: o que iríamos querer que eles queiram? Questão levantada também no livro Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, o best-seller do momento.

Agora, como essas questões se desenvolvem para o filme fluir bem? Nesse ponto chegamos ao maestro desta bela orquestra, Denis Villeneuve. Melhorando o que já vimos em A Chegada, o diretor cria um ambiente de imersão em um mundo tecnológico, mas apático e cinzento. Para isso, conta com grandes planos gerais impressionantes que nos jogam na imensidão, até um pouco solitária, dessa realidade. Há também cenas totalmente intimistas, quando os personagens se encontram dentro de algum cenário.

Villeneuve não está só, conta com o experiente diretor de fotografia Roger Deakins (007 – Operação Skyfall, Um Sonho de Liberdade), que trabalha com uma paleta de cores oscilando entre o pálido e mórbido até um forte alaranjado, quando entramos em uma zona radioativa. Acrescenta-se a isso um design de produção que honra o do filme clássico, trabalho de Dennis Gassner (007 – Operação Skyfall). Desde o visual de caçador de Ryan Gosling até o figurino de replicantes prostitutas, como Mariette (Mackenzie Davis), sem falar nos cenários variados, como a sede da empresa do vilão Niander Wallace (Jared Leto) em tons amarelos e muita água escorrendo pelas paredes, que criam um clima quente para um lugar sombrio. Além também das ruas das cidades, sempre noturnas, cheias de vida, mas uma vida fria, embaixo da chuva constante que marcou o original e retorna na sequência. Para juntar tudo isso, a competente edição de Joe Walker (A Chegada, 12 Anos de Escravidão), que monta uma narrativa de 2h43 minutos intensas a cada plano. Anote esses nomes, eles estarão no Oscar ano que vem.

Ryan Gosling não está sozinho nesta jornada. Harrison Ford retorna ao papel do Blade Runner Deckard. O mais legal é ver como ele foi muito melhor aproveitado aqui do que no recente Star Wars: O Despertar da Força. Ford é um elemento crucial para a compreensão da história e, como sempre, ao seu jeito, rouba a cena quando quer. Sorte de Gosling que ele não aparece em boa parte do filme. Outro que felizmente não aparece muito é Jared Leto. Seu personagem é um contraponto à questão da humanidade presente nos replicantes, mas suas falas são típicas de vilão maníaco, o que é uma pena, pois um personagem mais realista aqui elevaria o nível da questão que o filme quer expor. Mas não chega a ser um problema, porque, como disse, ele aparece pouco. A replicante Luv, que trabalha para Wallace, cumpre esse papel de forma muito melhor, sendo mais realista e, novamente, mais humana que os próprios humanos, neste caso para o lado do ego e da tristeza.

Blade Runner 2049 tem quase três horas e eu não recomendaria um filme longo assim se não valesse muito a pena. Uma produção excelente, que vai além do que o filme de 1982 debateu. Sua narrativa é densa e questões filosóficas sobrepõem sequências de ação. Mas quem escolher embarcar na proposta do longa chegará na hora dos créditos satisfeito de ver tamanha obra-prima sobre a existência humana. Um filme atual e ao mesmo tempo universal, pois essa é uma questão que nos persegue desde sempre e vai continuar conosco: o que nos faz humanos? E a resposta talvez seja muito simples.