Crítica | Patti Cake$

Todo mundo tem um sonho. Alguns transformam seus sonhos em objetivos e fazem de tudo para alcançá-los, outros se contentam em colocar a cabeça no travesseiro e ver a vida passar. Os personagens deste filme são uma mistura dos dois tipos: são sonhadores, pois o que desejam é algo que muitos julgariam impossível, mas se mostraram tão perseverantes que bem aos poucos o que parecia completamente surreal vai se tornando factível, ao passo que aprendem a superar seus próprios limites e também as pedras no caminho.

Patti Cake$, como indica o nome, gira em torno de uma jovem de Nova Jersey, Patricia Dombrowski, e de seu amigo indiano Jheri (Siddharth Dhananjay), cujo grande sonho é formar um grupo de rap de sucesso. Por conta desse detalhe, e sim, é apenas um detalhe, muitas pessoas podem não querer ver este filme por julgarem que o tema não é de seu interesse, por não gostarem do gênero musical ou algo do tipo. Porém, o longa retrata algo que muitos outros de sucesso também retratam: a famosa trajetória do herói. O rap é só a cereja do bolo. Patricia, nossa heroína, tem uma vida bem trash, um sonho “impossível”, um ídolo que admira incondicionalmente, amigos que a apoiam, um amor improvável, sofre bullying por ser gorda e tem uma mãe incompreensiva que vive no passado (mas, em compensação, tem uma avó bem badass). Pronto. Temos aí todos os elementos de um bom drama.

Tudo o que Jheri e Patricia precisam é gravar suas primeiras composições, escritas pela jovem, mas o dinheiro é curto e o preconceito dos demais é enorme. Analisando a situação da personagem principal, ela sofre preconceito multiplicado por três no filme, pois quer se inserir em um universo cuja predominância é, sem dúvida, de homens negros. Ela é branca, mulher e gorda. Ser levada a sério e ter oportunidade de mostrar seu talento é muito difícil, pois precisa superar seus medos e toda uma vida sendo chamada de Dumbo. O filme então coloca na mesa a questão da representatividade feminina em uma área ainda predominantemente masculina. Hoje em dia já encontramos mulheres nas rodas, em batalhas ou compondo seus próprios raps, mas mesmo assim elas se encaixam nesse padrão sexista. Patricia é extremamente talentosa, mas definitivamente está fora dos padrões.

O grupo que Patricia consegue formar conta com seu amigo indiano Jheri, sua avó e um outro rapaz para lá de estranho que se autodenominou Basterd. O nome do grupo é PBNJ (P – Patti, B – Basterd, N – Nana, J – Jheri), que também é um trocadilho com as iniciais de peanut butter and jelly (do inglês, manteiga de amendoim e geleia). É uma pena que durante a legendagem do filme os trocadilhos em inglês feitos pelos personagens, tanto nas músicas quanto nas rodas de batalha, tenham se perdido. É realmente muito difícil mantê-los, pois há muitas expressões em inglês que não conseguimos traduzir perfeitamente para o português. Neste caso, quem tem ouvido afiado e é bom no inglês sai na vantagem em relação à letra das músicas, que são todas muito boas.

Voltando ao grupo de Patricia a.k.a. Killa P a.k.a. Patti Cake$, já ficou claro que é uma composição bem atípica. Junte isso tudo ao fato de nenhum deles ter a condição financeira adequada para bancar o sonho, famílias ausentes e ou incompreensível e imagine a força que tiveram que ter para seguir em frente. Isso nos faz pensar bastante no clima que o longa propõe para nós. Com todos esses elementos dramáticos, era de se esperar que tivéssemos um final trágico e que até lá Patricia só iria se dar mal e acabaria por desistir do seu sonho. É aí que o roteiro nos impressiona, uma vez que ao longo da projeção inteira há maravilhosas pitadas de comédia, além de momentos em que você pensa: “Cara, que mulher f@#$!”, que apesar de muitos fatores indicarem que o melhor era desistir, ela seguiu em frente e acabou colhendo os frutos de sua persistência.

De fato, este não é um filme com um enredo tão feliz em que absolutamente tudo se resolve no final, pois se mantém realista e fiel à essência dos personagens – então é claro que há momentos de crise. Mas a lição mais importante fica clara ao final, que é a de que todos têm o direito de tentar e que se algo é feito com amor e dedicação, será, de alguma forma, recompensado. Agora pense você se esse é só um filme sobre rap ou se é algo a mais.