Crítica | Assassinato no Expresso do Oriente

Agatha Christie é uma das maiores autoras de todos os tempos. Suas histórias continuam atuais até os dias de hoje e, entre seus grandes clássicos, está o livro lançado na década de 1930, Assassinato no Expresso do Oriente, que é um thriller tão atemporal que possibilitou não apenas a existência deste filme, mas também garantiu seu sucesso.

Doze passageiros absolutamente diferentes entre si, uma pessoa brutalmente assassinada e o melhor detetive do mundo, todos presos dentro de um trem que vai da Ásia para a Europa em meados dos anos 1930. Esses são os personagens e o cenário de uma das mais celebradas histórias da escritora, que é – mais uma vez – adaptado para grandes telas, desta vez pelas mãos do diretor e ator Kenneth Branagh. Com um grande respeito pelo original, a obra é praticamente transposta para tela sem adaptações, o que por um lado com certeza vai agradar os fãs do livro, mas pode criar um distanciamento, devido ao seu ritmo diferenciado, para aqueles que não conheciam a história.

Hercule Poirot, interpretado pelo próprio Branagh, é considerado o maior detetive do mundo. Com uma cômica obsessão por simetria, o nobre investigador belga começa o filme cansado de suas andanças por vários países resolvendo os mais diversos casos, por isso parte para a Europa em busca de férias. É claro que o descanso dura pouco e ele é envolvido a contragosto em um grande caso, se vendo obrigado a tomar o elegante Expresso do Oriente, trem que o deixaria direto em seu destino. No entanto, uma avalanche de neve interrompe o caminho da composição e enquanto todos os passageiros e tripulação esperam a equipe de limpeza dos trilhos, estes descobrem o corpo esfaqueado de um dos ocupantes.

Poirot, totalmente contrariado, mas impelido por sua sede de busca constante pela verdade e pela justiça, encarrega-se de desvendar o crime e apontar o culpado. No extenso leque de suspeitos, dentre outros, coabitam uma princesa reclamona (Judi Dench, de Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha), um solícito médico (Leslie Odom Jr., de Esquadrão Red Tails), uma jovem governanta (Daisy Ridley, de Star Wars: O Despertar da Força), uma sedutora senhora (Michelle Pfeiffer, de Mãe!), um professor racista (Willem Dafoe, de Death Note), uma condessa reclusa e seu marido violento (Lucy Boynton, de Sing Street: Música e Sonho, e o bailarino Sergei Polunin), sem contar a extensa lista de empregados, tanto da pessoa morta, quanto do próprio trem. Aparentemente nenhum deles possui motivos ou razões para assassinar alguém, porém todos eles trazem histórias confusas que fomentam a curiosidade doentia do detetive e o fazem enveredar em um mundo de pistas.

Com uma direção de arte incrível, fotografia inventiva – afinal, todo o filme se passa dentro do trem – e uma trilha sonora marcante, o diretor faz o possível e o impossível para fidelizar seu filme à obra literária original. Pouquíssimas alterações na história original podem ser verificadas, e essa característica tem um potencial de afastamento muito grande do público leigo à obra, pois a escrita de Christie, apesar de brilhante, é bastante técnica e distante. A resolução do assassinato, que foi baseada em um caso real de infanticídio que abalou o mundo em 1932, é tratado por ela com extrema crueza no livro, o que não soa errado em um texto todo baseado na técnica. Por outro lado, em um longa, essa característica cria uma aura de desafeição muito grande à trama, sendo capaz de criar uma apatia em relação a mesma.

As atuações seguem a mesma característica “fria” descrita acima e, menos em relação ao próprio Kenneth, que brilha e faz rir com uma interpretação divertida, brincando com as manias e fobias de seu protagonista, todos os outros atores seguem uma cartilha um tanto padronizada e sem novidades, nem mesmo a jovem estrela Daisy Ridley consegue fugir deste padrão base e não se destaca de nenhuma forma. Assassinato no Expresso do Oriente é, portanto, um filme excelente tecnicamente, que peca por querer espelhar simetricamente na tela o livro no qual se inspira. Torna-se, por isso, bem mais agradável aos olhos daqueles que já estão acostumados com estilo narrativo de Agatha Christie, enquanto que para os “leigos” pode se tornar uma tarefa mais complicada apreciar tudo o que o diretor gostaria que fosse apreciado.

De bônus, somos agraciados com uma cena no ato final que, além de divertida, é uma genial brincadeira fotográfica com um conhecido quadro de Leonardo da Vinci que apresenta um paralelo tão grande com a indústria cinematográfica de hoje e faz com que nos perguntemos se Agatha Christie possuía algum tipo de máquina do tempo. Realmente ela foi capaz de criar uma história engenhosa e atemporal, muito bem representada neste longa.