Crítica | O Que Te Faz Mais Forte

Há quatro anos, na Maratona de Boston de 2013, o que parecia ser um dia comum e alegre tornou-se um dia de terror. Dois irmãos chechenos foram responsáveis pela explosão de duas bombas caseiras – feitas em uma panela de pressão – que explodiram em meio às pessoas que assistiam a maratona. Nesse atentado terroristas, três pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas. Todos sabem o que um ataque terrorista representa, principalmente para os Estados Unidos. Este filme trata exatamente da repercussão deste ataque na vida da população.

Jake Gyllenhaal interpreta Jeff Bauman, um homem comum que simplesmente estava no lugar errado, na hora errada. Ele se torna uma das vítimas mais conhecidas da Maratona de Boston devido à viralização de uma foto sua sendo retirado do local das explosões, expondo suas pernas completamente dilaceradas. Até hoje podemos encontrar essa foto na internet, imagine então a dimensão da repercussão que teve na época. Após a amputação de ambas as pernas e algum tempo internado, Jeff também ajuda o FBI a identificar um dos responsáveis pelas bombas. Isso o torna ainda mais famoso e as pessoas dão a ele um novo apelido: Boston Strong (Boston Forte).

De volta à casa, ele precisa agora lidar com sua nova realidade e tentar superar o trauma do atentado que acabou por mudar sua vida completamente. Ele passa a ser constantemente assediado pela mídia e pelas pessoas na rua, é convidado a participar de programas de TV, dar entrevistas e a fazer aberturas de jogos dos times da cidade. Ele se torna um símbolo de força e resistência, embora não entenda bem o porquê. Neste momento é que entra a parte crítica e mais importante do filme.

Em contraste com a imagem que as pessoas de fora tinham de Jeff, podemos ver o quão perturbado ele estava com a sua situação, como ele estava frágil emocionalmente e como foi difícil superar todos os acontecimentos. Em muitos momentos do filme o vemos questionando a admiração das pessoas em relação a si próprio, afinal, o que ele fez para merecer isso? Muitos diziam que ele era a mensagem viva de que não se pode deixar “aquela gente” vencer. Jeff, por outro lado, já achava que havia perdido, pois estava sem as pernas.

Com uma excelente atuação, Jake Gyllenhaal retrata os dilemas de Jeff e os problemas que precisa enfrentar com sua família – que gosta de toda atenção que ele recebe da mídia – e sua namorada – que acha que ele precisa se concentrar em sua fisioterapia para poder, com o auxílio das próteses, voltar a andar. A vida de Jeff neste período é prova de que por mais rótulos de força as pessoas colocassem nele, forte era o último adjetivo que o definia. Ele criticava abertamente as pessoas que o tratavam de forma especial na rua e acabava ficando ainda mais transtornado por conta disso.

Houve momentos em que esteve muito perto de desistir e perder tudo. Não aguentava mais ter que representar esse tal Boston Strong em nome do patriotismo. E é esse de fato o tema central que o filme quer criticar. Grande parte dos norte-americanos são bastante patriotas e Jeff era, naquele momento, o grande símbolo de resistência contra o terrorismo. O problema é que se esqueceram de que ele era, antes de tudo, um ser humano que estava passando simplesmente pelo pior momento de sua vida.

Mesmo assim, como esse é um filme norte-americano, Jeff vai contra essa corrente até um certo ponto apenas. Aos poucos, começa a perceber que as pessoas que vão falar com ele na rua se sentiram inspiradas com sua história, que ele as deu esperança para continuar. Desta forma, ele aceita a sua alcunha de Boston Strong de tal maneira que fizeram um livro sobre sua história e agora este filme.

É claro que o que aconteceu com ele e a maneira como conseguiu superar tudo é, sim, digno de ser contado, mas seria bom que seu exemplo não servisse para fomentar o patriotismos exagerado, responsável pela xenofobia, por exemplo. Isso é apenas uma suposição e esse filme é essencialmente uma mensagem de superação não apenas para algumas pessoas, mas para uma nação inteira.