Crítica | Divórcio

Mais uma comédia nacional chega aos cinemas prometendo arrancar risadas de seu público. Estrelado por Camila Morgado e Murilo Benício, Divórcio é a nova aposta do diretor Pedro Amorim (Mato Sem Cachorro). No longa, somos apresentados ao casal Noeli e Júlio, que juntos construíram uma grande empresa de molho de tomate que lhes trouxe um sucesso estrondoso. No entanto, o trabalho e o sucesso trazem consequências ao casamento deles, de forma que ambos só projetam uma solução: divórcio.

Noeli vem de uma rica família do interior de Ribeirão Preto e Júlio é um carioca que abre mão de sua vida na cidade grande para ficar ao lado de sua amada. Fofo, não? Mas apenas por enquanto. Logo nas primeiras cenas de Júlio, o vemos dirigindo em alta velocidade por uma estrada de terra ao som de um rock pesado. Intercalado a isso, vemos Noeli vestida de noiva prestes a casar-se com um homem que não ama. Até que, aos 45 minutos do segundo tempo, o personagem de Murilo Benício entra em cena roubando a noiva do altar.

Desde sua participação em Até Que A Sorte Nos Separe 2, como a esposa de Tino (Leandro Hassum), Camila Morgado tem mostrado bom jogo de cintura em papéis cômicos, e essa performance se repete – ainda melhor – em Divórcio. A construção de Noeli cai como uma luva para a atriz que, mesmo forçando o sotaque do interior de forma caricata o suficiente para dar certo, entrega uma personagem divertida e determinada. Já Murilo Benício abraçou a ideia de se tornar o Tufão (seu personagem em Avenida Brasil) tanto fora quanto dentro das telas e sua versão carioca-que-se-torna-caipira também funciona bem. Não que seja uma atuação digna de Oscar, mas é algo que de tão tosco torna-se divertido, encaixando fluidamente na narrativa.

Apesar de todo o elenco ser bom para a trama, devemos destacar os personagens Pardalzinho (Robson Nunes) e o bandido e hacker interpretado pelo comediante Paulinho Serra. O interessante de Pardalzinho é a mudança do personagem, mesmo em pouco tempo de tela. Enquanto em um momento ele é usado como um trunfo, logo em seguida vira uma ameaça. Já Paulinho Serra é genial como não poderia deixar de ser. Comparando por alto, ele seria uma sátira ao seu próprio personagem de Traficante Gay. Embora o papel pareça – e seja mesmo – clichê, o entrosamento de Serra com a veia cômica facilita para que ele consiga fazer a plateia rir simplesmente com seu olhar.

A grande questão relacionada ao longa é que sua premissa é muito simples, o que poderia ser um risco se não fosse tão bem executada quanto foi. Mas ainda assim o roteiro dá umas deslizadas ao jogar obstáculos um tanto quanto bizarros na narrativa. Contudo, mesmo bizarros, tais obstáculos não fazem com que a trama conclua seu percurso de forma corrida demais ou deixando muitas pontas soltas.

Nos quesitos fotografia e direção de arte, Divórcio supera expectativas. As composições meticulosas usadas durante a transição temporal no início do longa merecem destaque. Já as cores vibrantes auxiliam na ambientação dos cenários, dando um clima quente aos acontecimentos. Este clima também intensifica a mensagem de que os nervos do casal estão à flor da pele. Afinal, o ambiente ali é de uma guerra intensa.

A trilha sonora e o contexto no qual a história se passa são dois acertos. O primeiro porque, assim como Noeli e Júlio, mistura o universo urbano ao interior. No entanto, se a versão rock de “Evidências” na voz de Paula Fernandes tivesse mais intensidade e emoção, convenceria mais. Porém, a falha na música acontece mais pelo erro na escolha da intérprete do que qualquer outra coisa. Já a música de rock pesado, introduzida nos primeiros minutos do filme, sustenta a contemporaneidade da história. E aproveitando a ambientação interiorana, o longa se diverte ao introduzir um personagem de cantor sertanejo para complementar a trilha em alguns momentos.

E como dito acima, o contexto é um outro ponto-chave. Isso se dá por conta da escolha da ambientação: o interior do Brasil. Os cenários rurais são bem colocados na trama, saindo do já fatigado enredo urbano visto em produções anteriores. A narrativa abraça a moda do sertanejo universitário e da sofrência para basear sua história e moldar seus personagens. E esse cenário flui de forma natural ao longo do filme, sendo forçado na medida certa e com tiradas de comédia precisas e pontuais.

A premissa do longa é realmente interessante e pode causar um espelhamento com sua audiência. Além disso, ele entrega humor, drama e ação em uma história que, apesar de simples e clichê, se desenvolve bem ao longo dos atos. As interpretações, em especial a do casal de protagonistas, são divertidas de se acompanhar, principalmente devido ao entrosamento dos atores em frente às câmeras.

As situações extremas nas quais os cônjuges se colocam entram em um contexto convincente a partir de uma motivação genuína. E tais conflitos ganham intensidade e destaque maior, principalmente, quando recursos de efeitos especiais são utilizados, igualando-se à produções internacionais. Ademais, apesar da veia cômica predominante na trama, Divórcio conta com diversos contextos dramáticos que, quando vistos através do contexto geral, podem dar ao longa a classificação de “dramédia”.

Este é um filme que consegue entregar o que propõe à sua audiência através de um ritmo bem trabalhado e uma produção bem executada em todos os campos. Não reconhecer a qualidade de Divórcio é reforçar a síndrome de vira-lata que persiste em ficar no pensamento coletivo que, mesmo quando apresentado a boas obras, se recusa a aceitar que o Brasil é sim digno de fazer grandes produções para seu público.