Crítica | Depois Daquela Montanha

A aguardada adaptação cinematográfica do livro de Charles Martin promete agraciar o público com sua história de romance e sobrevivência em situações extremas. E como já é comum de acontecer quando livros são adaptados ao cinema, Depois Daquela Montanha também sofreu alterações narrativas na projeção. A começar pelo nome da protagonista, que no longa se chama Alex (Kate Winslet).

Alex é uma jornalista que está prestes a se casar. Ela precisa chegar em Nova York a tempo de sua cerimônia de casamento, mas uma forte tempestade faz com que o aeroporto interrompa os vôos noturnos. Também com pressa de chegar ao seu destino o quanto antes está Ben (Idris Elba), um neurocirurgião que irá operar um jovem paciente na manhã do dia seguinte. Coincidentemente, o voo de Ben seria o mesmo de Alex, e ao ouvir uma conversa do médico com a balconista no aeroporto, a jornalista propõe dividir um jatinho fretado para tentarem chegar em seus compromissos a tempo.

O que eles não contavam seria o seu piloto sofrer um derrame quando já estavam no ar e o avião perder o controle e se chocar no meio de montanhas cobertas de neve. Perdidos no meio do nada e com poucos recursos, a dupla (e o cachorrinho do falecido piloto) agora precisa arrumar formas de tentar escapar dali. Ambos sofreram lesões no acidente – menos o cachorro, vale ressaltar -, mas Alex é quem está em situação mais crítica, já que feriu gravemente uma das pernas e está com os movimentos debilitados.

Ao longo da projeção, a dupla passa por questionamentos relacionados à esperança de sair de lá, conflitos de interesses, crises pessoais e muita, muita neve. A fotografia assinada por Mandy Walker juntamente aos belos cenários onde a dupla se encontra já são um deleite aos olhos do espectador, sendo capaz de imergir o público de maneira que este também se sinta preso nas montanhas com Alex e Ben.

Já a química entre Kate Winslet e Idris Elba em cena só comprova que o star system não falha. Grandes nomes são capazes de levar público ao cinema, independente do gênero, para a sorte da indústria. Porém, o roteiro escorrega nas atitudes um tanto equivocadas de nossos heróis e lacunas que poderiam ter ganhado mais desenvolvimento na narrativa. Além do mais, temos o fator relação direta com o livro. Para quem não leu a história original de Martin, o filme entrega uma boa e singela narrativa, sem muitas surpresas. Mas se você for um fã do livro, pode se desapontar com a ausência de alguns detalhes, incluindo a primordial revelação de Ben – que é o grande mistério da versão literária.

No longa, a revelação se dá de forma simples e objetiva, sem tanta profundidade quanto no livro. E tal esquema se mantém para diversos outros aspectos. Mas independente disso, se o espectador for ao público sabendo da questão de que nem sempre os filmes podem ser 100% fiéis aos livros, a coisa ganha uma nova forma. Depois Daquela Montanha não é um filme de baixa qualidade, pelo contrário. Há diversos fatores que o colocariam no topo de avaliações. Mas o roteiro raso não permite que conheçamos os personagens e seus respectivos perigos a fundo para chegarmos às nossas conclusões – por mais que em alguns momentos seja fácil escolher um lado para torcer (em boa parte deles, o do cachorro).

A resolução da história se desenvolve de forma um tanto quanto corrida e clichê. Os momentos finais da projeção vão do “que coisa brega” ao “ah, tudo bem, isso é ficção” em questão de segundos. Depois Daquela Montanha tira o espectador do conforto dos triângulos amorosos já usados à exaustão em filmes de romance para levá-lo às incertezas do desconhecido, utilizando-se de fatores como oposição de ideias, situações de risco e até reencontros típicos de filmes de Sessão da Tarde para tentar encantar a audiência. No fim, a produção funciona mesmo sem causar tanto impacto com sua conclusão cafona. Mas sinceramente, tudo bem. Afinal, estamos falando de ficção.