Arrow | 6×14 – Collision Course

É horrível ver uma série que você gosta sendo consistentemente ruim ao ponto de fazer uma boa parte do público desistir, e Arrow já passou por um momento assim, mas é muito mais frustrante acompanhar um programa que te dá esperanças de que vai melhorar e no final entrega algo muito pior do que o esperado. A sexta temporada da série do Arqueiro Verde faz exatamente isso: tem algumas boas ideias no meio do roteiro, usa algumas fórmulas que são diferentes das que usou no passado, mas no fim tudo acaba gerando um resultado péssimo.

Para falar de Collision Course é preciso voltar um pouco e analisar um dos elementos principais desta temporada: a divisão do Team Arrow em dois grupos diferentes. Para a série isso foi novo e, portanto, dentro deste universo essa era uma alternativa não tão ruim, levando em conta que os roteiristas queriam dividir a equipe. Por ser algo que Arrow ainda não havia explorado, existia a chance de que alguma coisa nova fosse sair dali. E por mais que novo muitas vezes não seja sinônimo de bom, pelo menos já era algo promissor dentro de uma série que já falhou tanto tentando reciclar ideias utilizadas anteriormente. E talvez essa separação até poderia ser legal, não fosse pelo fato de que teve origem em um roteiro extremamente forçado que só foi possível porque foram atribuídas ações e falas absurdas aos membros mais novos da equipe.

Na review de Irreconcilable Differences, eu cheguei a dizer que isso só faria sentido se aceitássemos que Dinah, Rene e Curtis foram “emburrecidos” no roteiro para que tudo pudesse se desenrolar, e isso é tão verdadeiro que em Collision Course fica impossível de não perceber o quanto todos eles estão sendo descaracterizados ao longo desta saga. Eles estão sendo representados como repetitivos, exagerados, hipócritas e burros, de modo que a impressão que dá é que a ideia dos roteiristas é fazer com que o público odeie todos eles para que os personagens possam ser retirados da série sem problemas. Não existe outra conclusão lógica para esse arco depois de tudo o que aconteceu no episódio, e se antes eu acreditava que tudo isso seria chato porque eles iriam se unir de novo eventualmente, agora a situação piorou, pois se os grupos voltarem a ser um só depois do que aconteceu aqui, então todos, inclusive a equipe original, estarão sendo ainda mais descaracterizados. Seria a mesma coisa que dizer “não estamos nem aí para os personagens, a gente só queria que eles brigassem para ter audiência”.

E falando em hipocrisia, descaracterização e nos eventos do episódio, está na hora de falar sobre o que de fato se passou, já começando pelos problemas. No meio de tudo o que vem acontecendo até aqui, a pessoa mais “racional” na nova equipe era o Curtis. Ignorando a parte de confiar no Vigilante, ele era até então um dos mais sensatos: sugeria trabalhar com o outro grupo por uma causa maior, ainda mantinha relações profissionais com a Felicity sem nenhum problema aparente e, no geral, era a voz da razão da equipe nova. Tendo dito isso, foi dele que veio a ideia de desativar o implante do Diggle (causando muita dor ao personagem) apenas para poder rastrear a outra equipe. Essa foi, de longe, a maior descaracterização sofrida por este personagem na série. Isso vai contra tudo o que ele mostrou até hoje e, pior ainda, foi o pontapé inicial para o conflito mais forçado da história de Arrow. Conflito que, aliás, é algo novo para o programa, mas que coloca a série em uma lista extremamente longa de representações de combates entre heróis na última década. Não adianta levar o roteiro em uma direção que é nova para a série, mas que já se transformou em clichê quando se fala em super-heróis.

E já que estamos falando em descaracterizações, é hora de falar da Dinah. Nem vale a pena gastar tempo falando do tanto que a sua representação é um desserviço à personagem dos quadrinhos, então a melhor coisa é falar das inconsistências com a série. O ódio da Canário pela Black Siren é extremamente compreensível, mas nada do que a personagem mostrou até o momento faz com que suas ações façam sentido. Ela era uma boa policial, se tornou heroína, nunca fez anda que não envolvesse ajudar pessoas e, de repente, ela acha que a sua vingança é mais importante do que as vidas ou o bem-estar de toda uma cidade. O problema não é ela querer matar, não seria problema nem se ela de fato fizesse isso, a questão é que ela jogou o trabalho da sua vida e as suas crenças no lixo só para poder matar a mulher responsável pela morte de um criminoso que nem deveria estar vivo para começo de conversa. Minha única expectativa para a personagem no momento é que ela lute com o Oliver e ele a coloque no hospital da mesma forma que fez com o Rene.

No meio de tanta coisa absurda, o Quentin parece ser a pessoa mais sensata da série. E o fato de que o cara que quer converter uma assassina de outra realidade na filha que ele perdeu apenas para se sentir menos sozinho estar sendo mais consistente do que metade do elenco é assustador. Ele vê na Black Siren uma chance de redenção para ambos: ele acha que ela ainda pode ser boa, mas o mais importante é que ele quer ser útil e protegê-la, coisa que ele não conseguiu fazer com nenhuma de suas filhas. Parando para observar, o enredo envolvendo a família Lance chama a atenção por ser bem triste, mesmo que seja absurdo. A luz no fim do túnel de tudo isso é que Paul Blackthorne está consistentemente entregando uma atuação muito acima do nível da série, e isso faz com que as cenas que o envolvam sejam pontos positivos em qualquer episódio.

E é verdade que ele não foi a única coisa boa do episódio. Ver a equipe original trabalhando junta é sempre nostálgico, isso deixa bem claro o motivo pelo qual no meio de tantas reformulações e novos membros os três originais nunca se separam permanentemente: a química entre eles funciona muito bem em tela. O Rene também foi um destaque positivo no meio de tudo. É verdade que tudo isso começou porque ele foi extremamente descaracterizado ao trair o Oliver, mas aqui ele foi bem representado. Desde o plano para colocar o rastreador no Arqueiro, que aliás foi um ótimo momento, até a luta contra Oliver, quando o nome Cachorro Louco fez muito sentido e ele de fato tentou matar o antigo companheiro com um machado (coisa que vindo dele é compreensível), tudo funcionou bem e se encaixou com seu personagem.

Mas a triste verdade é que a melhor parte de Collision Course é o fato de que, aparentemente, teremos uma pausa nesse conflito entre as equipes. Com o Rene fora de combate e com o conhecimento de que o Roy terá um arco na série, parece que vamos poder ignorar a nova equipe por um tempo, e isso é ótimo. O episódio em si teve suas boas cenas e interpretações (mesmo que no meio de muita coisa ruim), mas ele serve apenas de exemplo sobre como não fazer uma história de heróis. Descaracterizar os personagens e transformá-los em hipócritas apenas para poder forçar um enredo clichê que costuma funcionar comercialmente não é o que vai fazer a audiência da série subir. Quem sabe a volta temporária do Arsenal traga bons episódios, mas se o resto da temporada for trazer de volta esse conflito ridículo, então é melhor começar a torcer para que a sétima temporada venha logo.