Fora de Cena | A História Sem Fim

Lá na década de 1980, bem antes do sucesso dos atuais filmes de fantasia voltados para o público infantojuvenil, como as sagas Harry PotterPercy Jackson e Nárnia, o longa A História Sem Fim atraiu milhões de espectadores para o cinema. O retorno positivo da produção foi responsável por recordes de bilheteria na Europa, marcando uma geração não só por lá, mas em todo o mundo.

Logo, por que não chamar A História Sem Fim de “pai” das mais recentes produções de fantasia? Ou, no mínimo, uma importante referência? Como nas adaptações cinematográficas de hoje, a trama do longa vem de um livro, mais exatamente o romance homônimo do escritor alemão Michael Ende. Além disso, ela também ganhou sequências, tendo um total de três títulos – A História Sem Fim (1984), A História Sem Fim 2 (1990) e A História Sem Fim 3 (1994).

O filme conta a história de Bastian, um menino de poucos amigos que vive só com o pai desde a morte da mãe. Um dia, correndo dos meninos maus do colégio, ele entra numa livraria para se esconder. E… o que encontra? Um livro enorme, com uma capa de couro marrom e um símbolo em metal: duas cobras entrelaçadas, uma mordendo o rabo da outra. Quando o dono do lugar vira as costas, Bastian sai correndo com o livro debaixo do braço. Escondido na sala de almoxarifado da escola, o menino acende algumas velas e abre o livro. A partir daí ele começa a se envolver com a história de uma terra chamada Fantasia, governada por uma Imperatriz que precisa muito de ajuda. O “Grande Nada” estava acabando com tudo o que existia, e dentre os melhores guerreiros foi escolhido apenas um para ser o salvador do lugar. Quem foi escolhido, para a surpresa de Bastian, foi um menino chamado Atreyu.

O problema é que ele não tem ideia de como salvar Fantasia. Então, embarcará em uma aventura pelo mundo tentando encontrar as pistas com aqueles que conhecem os mistérios locais, ou seja, as criaturas mais antigas: desde uma tartaruga gigante, passando por um oráculo em forma de esfinge e o próprio vilão G’mork, um grande cão negro. No meio do caminho terá que lidar com a perda de um grande amigo e companheiro (seu cavalo), uma das cenas mais tristes que você vai ver e que rendeu muitas lágrimas a todos. Voltando agora para o enredo, é importante entender que este filme nada mais é do que uma alegoria da própria importância das histórias e da interação do público com elas. A mágica se faz quando nos importamos com os personagens, quando nos sentimos dentro daquela aventura, quando podemos viajar juntos para espaços inimagináveis. Ou melhor, quando podemos aguçar nossa imaginação para criar junto com os livros.

No cinema, a cena já vem pronta, mas ainda assim cada um pode interagir e reagir de uma maneira e de acordo com suas próprias referências. É essa a graça de ouvir, ler e acompanhar narrativas. A cena em que Atreyu olha no espelho e vê Bastian carrega em si a simbologia máxima dessa mistura entre personagem e leitor. E através do vínculo, da empatia criada, é que tudo pode acontecer. Ainda hoje tudo isso funciona de uma maneira impressionante. Já a técnica, aos olhos atuais, pode causar estranhamentos. Por outro lado, levando em consideração que estamos falando da década de 1980 e de poucos recursos tecnológicos, é impressionante que se tenha feito seres tão diversos, incluindo um dragão chinês com cara de cachorro que voa. Mas é mesmo uma técnica datada na qual é possível ver as marcações e falhas. As paisagens, mesmo mais estáticas, ainda assim são de admirar. A trilha sonora também traz ecos de sua época de maneira forte, com muitos teclados e uma atmosfera disco. Talvez seja o ponto mais destoante de se acompanhar hoje.

De qualquer maneira, A História Sem Fim é um daqueles filmes que marcam uma época e continuam fazendo sentido ainda hoje. Mesmo trinta anos depois, o livro ainda é uma forma espetacular de embarcar em viagens únicas. Na época, o bibliotecário estava preocupado com a concorrência dos fliperamas. Hoje, a concorrência é maior, mas ainda assim muitos livros surgem a cada dia nos formatos mais diversos. A Imperatriz menina deve continuar reinando, então, feliz em Fantasia.