Fora de Cena | O Abominável Dr. Phibes

O Abominável Dr. Phibes (1971) é praticamente um dos últimos elos do cinema de terror com o que vinha sendo feito até então nas décadas passadas, principalmente com relação ao estilo, antes do gênero entrar de cabeça no pessimismo dos anos 1970, tornando-se de uma vez por todas hostil, cruel e sem esperança, graças a produções que estavam por vir nessa década.

Vincent Price encarna aqui o seu papel mais conhecido (talvez somente menos conhecido do que sua participação na música “Thriller“, de Michael Jackson) como um dos mais icônicos vilões do cinema de horror. E não há outra pessoa no mundo que se encaixaria de forma tão perfeita na pele do Dr. Anton Phibes, músico profissional, educado em Heidelberg, na Alemanha, e doutor em teologia pela Sorbonne, que busca uma engenhosa vingança contra o corpo médico que considera responsável pela morte de sua amada e belíssima esposa na mesa de operação.

Tudo no filme é exagerado e com um delicioso estilo camp, passando pelos mais variados tipos de absurdos, como: os métodos de vingança de Phibes, inspirados nas pragas bíblicas que caíram sobre o Egito, que vai desde gafanhotos, a ratos, morcegos e um unicórnio de bronze lançado através de uma catapulta bem no meio das ruas de Londres (acredite se quiser); o gramofone que Phibes usa para falar através de um dispositivo ligado diretamente em sua traqueia; Vulnávia, sua excêntrica e solicita comparsa; a banda de bonecos de corda de tamanho natural que anima seu covil em art déco; e, claro, os inspetores da Scotland Yard que investigam o caso, que mais lembram personagens de um quadro do Monty Python. Isso regado às sessões de órgão nas quais Phibes executa “War March of the Priests“, de Felix Mendelssohn.

Inclusive, a última vingança que recai sobre o Dr. Vesalius, chefe da equipe de operação, é digna da franquia Jogos Mortais, em que ele tem seis minutos para retirar uma chave colocada dentro do corpo de seu filho mais velho (alusão à maldição do primogênito) antes que uma traquitana derrube ácido em seu rosto e ele fique deformado para sempre, como aconteceu com o louco músico/cientista após um acidente de carro. E a maquiagem da face deformada de Phibes lembra muito O Fantasma da Ópera de Lon Chaney (fora as outras homenagens óbvias, como o sofrimento do personagem recluso e sua aptidão em tocar órgão).

Price, é mais uma vez, exuberante, excêntrico e repleto de cacoetes teatrais em sua atuação. Para ganhar ainda mais publicidade, o filme foi vendido como o centésimo do ator. É diversão pura do começo ao fim, com um clima bastante diferente do que vamos ver daqui para frente, quando o cinema de terror adquire um outro aspecto muito mais sádico e brutal. O sucesso foi tão grande que ganhou uma continuação no ano seguinte: Dr. Phibes Rises Again.