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Crítica | Venom

Chegou a vez de um dos personagens mais peculiares das histórias do Homem-Aranha ganhar seu espaço nas telas de cinema ao redor do globo. Prometendo a estreia da parceria entre Universo Marvel e Sony, Venom apresenta a transição do personagem que vai de vilão a anti-herói ao hospedar-se no corpo do repórter Eddie Brock.

No longa estrelado por Tom Hardy, acompanhamos os experimentos da Fundação Vida, comandada por Carlton Drake, apresentar resultados questionáveis, principalmente após o início do estudo da simbiose entre alienígenas e seres humanos causar vítimas fatais. Mas quando a preciosa informação chega aos ouvidos do repórter Eddie Brock através de uma das cientistas envolvidas no experimento, as coisas começam a ir por um caminho inesperado e um dos alienígenas encontra em Eddie seu mais novo hospedeiro compatível.

O longa, diferentemente dos já conhecidos filmes da Marvel, sempre cheios de cores e piadas, ganha uma nova atmosfera para atender ao universo do personagem. Com uma característica visual fortemente sombria, é certa a percepção de que, pelo menos enquanto ainda é visto como um vilão, Venom é uma ameaça. Contudo, essa atmosfera obscura se distorce nos momentos em que somos lembrados de que ainda se trata de um filme da Marvel e o texto começa a pesar na forçação de gerar algumas cenas engraçadas para seu público.

Para os amantes dos quadrinhos do Homem-Aranha, Venom pode não vir como uma boa surpresa. Muito porque algumas das referências que o ligariam ao herói passam despercebidas, e outras nem ao menos passam. Se você conhece a história do anti-herói, sabe que muito antes de Eddie Brock, Peter Parker foi um dos hospedeiros de Venom, até conseguir livrar-se dele. Já Eddie foi demitido do jornal Clarim Diário após reportar uma fake news e ser desmascarado pelo Aranha, o que justifica sua saída de Nova York para São Francisco.

De fato, Brock e Venom possuem muitas coisas em comum, mas a principal delas é: ambos odeiam o Homem-Aranha. E, aparentemente, o longa de 2018 também, visto que em momento algum o herói é citado, mencionado ou tem sua existência naquele universo ao menos lembrada. Por exemplo, em uma conversa com Annie (Michelle Williams), Eddie cita um incidente em seu antigo trabalho em NY, mas muito superficialmente, sem ir muito longe. E só. Não é como se falar do herói fosse absolutamente necessário para a trama, mas acaba que a alteração e ocultação da história deixa a sensação de que algo está faltando.

Além disso, sem dúvidas, um dos maiores vilões do longa é a classificação indicativa. A abordagem do filme é leve demais para um personagem tão complexo quanto Venom e acaba ferindo a narrativa da adaptação, que entrega textos simples e soluções pouco criativas como resultado. Momentos que poderiam ter um pouco menos de limitações nas falas e condutas acabam sendo censurados para encaixar bem à faixa etária escalada para o longa, o que gera uma perda na condução da trama, que fica rasa demais.

No entanto, é necessário reconhecer a grande sintonia entre Brock e Venom quando começam a se entender como um corpo só. A construção da relação da dupla não nasce da noite para o dia, e depois que é desenvolvida, ganha um rumo interessante. E é a partir disso que podemos conhecer um outro lado do alienígena, que se mostra sarcástico e tirano com seu hospedeiro. E o que destaca o “humor” do Venom do humor do resto da trama é que ele é bem encaixado na história e não é forçado. E ainda que não combine com toda a obscuridade do personagem, funciona muito bem.

De modo geral, o filme possui seus pontos positivos, mas muitos dos negativos acabam prevalecendo. Certamente dá para ver o esforço de Tom Hardy em mostrar que deu tudo de si para o papel, embora seja o único que consiga garantir esse destaque. Tanto na pele de Eddie quanto na pele de Venom, Hardy vive a ambiguidade dos personagens ao máximo e até dá certo, ainda que não seja o suficiente para salvar a história rasa e pouco criativa do longa.