Crítica | A Morte Te Dá Parabéns

É fato que filmes como Pânico e Halloween marcaram toda uma geração quando foram lançados. Após o grande sucesso nas bilheterias, as produtoras gradualmente foram tentando explorar ao máximo um gênero até então já saturado. Todavia, longas como Uma Noite de Crime, Você é o Próximo e Hush – A Morte Ouve mostram ser um caso à parte nesse aglomerado de títulos, reforçando que coisas boas ainda podem surgir de enredos que abordem isso.

Assim, A Morte Te Dá Parabéns é a mais recente narrativa a entrar para essa lista de bons thrillers. A trama, que mescla suspense com um toque de terror, surpreende ao apresentar pretensiosos desfechos, colocando em prática clichês que encontramos em histórias parecidas. Trazendo um quê de inovação, o filme se diferencia dos demais por conseguir brincar com a cronologia do tempo, algo conceitual explorado em contos como Antes Que Eu Vá, Contra o Tempo, No Limite do Amanhã, entre muitos outros que implementam essa perspectiva.

Na trama, Jessica Rothe interpreta Tree Gelbman, uma típica maldosa e adolescente patricinha que acorda na cama de um estudante desconhecido após uma noite de muita bebedeira no campus em que reside. Tudo vai bem na vida da menina, não fosse o enigmático fato de ela ser assassinada por um mascarado no dia em que faz aniversário. Como acontece em todo pesadelo, a jovem acorda e se dá conta de que continua viva, mas, ao sair do quarto, tem a sensação de já ter vivido aquele dia. Preferindo dar razão ao aparente sexto sentido, Tree muda o trajeto noturno com o intuito de evitar o fatídico destino. Entretanto, ao retornar para casa, acaba tendo mais um fim violento, que se repete em um ciclo que perdura por 16 dias.

Constatando essa experiência de Déjà vu, a garota entra numa missão para desvendar quem seria o possível psicopata por trás dos crimes. Porém, a quantidade de desafetos acumulada no dia a dia não facilita a lista, resultando em fracassos seguidos de mortes. O roteiro escrito por Scott Lobdell se mostra bem desenvolvido, superando a trivialidade ostentada na narrativa. Os dias que são recorrentes não se tornam maçantes, pois os acontecimentos fluem de forma natural nas 1h36m de filme, postura que reforça uma preocupação com o decorrer da cronologia.

O espectador consegue levar um susto ou outro, garantido pelo exorbitante som de impacto carregado na sonoplastia. Mas Tree consegue arrancar alguns divertidos momentos com uma ironia presunçosa transmitida em muitas passagens do título. Desde o início, fica claro que a protagonista retorna à vida para desvendar o motivo pelo qual está sendo perseguida, entretanto, um buraco no enredo não elucida como isso é possível, causando incômodo nas pessoas que saem da sala com essa carência de conhecimento. Outro ponto que não fica claro é o estado de saúde da personagem em si, pois em dado momento o médico revela que ela não poderia estar viva com as lesões que foram sofridas.

O elenco, que não é tão conhecido, funciona bem em tela, sendo capaz de entregar caracterizações que cumprem com o exigido. É claro que a protagonista Jessica Rothe rouba todo o brilhantismo, tornando um papel simples em complexo e objetivo. Aos poucos vemos os dramas que estão escondidos na fachada da patricinha, indicando as razões pelas quais ela se tornou uma pessoa fria, festeira e solitária, posto que criou uma parede entre amigos e família. Isso ocorre na medida em que Israel Broussard chega para quebrar essa barreira, engatando um possível interesse romântico na narrativa. O garoto personifica um jovem comum e tímido, exteriorizando a inconfundível imagem de amor impossível ao se apaixonar pelo que seria a “popular” da escola. Os outros personagens reforçam esse ambiente hostil encontrado em fraternidades americanas, ao passo que o assassino capta a essência de ser macabro e causar suspense.

A direção de Christopher Landon é funcional e bem concebida, criando uma obra apta a entregar um conjunto de comédia tocada por terror. O instinto visual do diretor é progressivo e exerce a bagagem adquirida no bem-sucedido Paranoia, de 2007, dentre outros títulos da aclamada franquia Atividade Paranormal.

Ainda que não tenha uma mensagem reflexiva, o mais recente projeto da Blumhouse alcança um patamar satisfatório, capacitado para atrair adolescentes e fãs do gênero para as salas de exibição do filme. É visível a referência que o título faz a outras sagas, ostentando as clássicas cenas de perseguição no estacionamento, quarto, escada e muitas que causam sobressaltos naqueles que torcem pela mocinha. A trama, além de captar a atenção, planta a dúvida se Tree de fato irá sobreviver ou morrer no final, deixando no ar se ela conseguirá ser feliz. Os defeitos não impedem o público-alvo de apreciar o conjunto da obra, proporcionando um entretenimento bom e descontraído.