Crítica | Doentes de Amor

Em muitos casos, conhecer os pais da namorada pode se tornar um verdadeiro desafio para o casal. Somos tocados por ansiedade, medo, receio e alguns outros fatores que englobam as expectativas desse momento. Mas imagine ter essa experiência de forma obrigatória logo após sua parceira ser colocada em um coma. Depois piore tudo mais um pouco ao romper ligações com ela alguns dias antes disso e agora saber que será julgado por esse casal de estranhos em um cenário crítico. Loucura, não é mesmo? Mas é justamente por isso que Doentes de Amor ultrapassa a linha da comédia romântica, se aprofundando em pequenos dramas que marcam como único esse título considerado intrigante para os fãs do gênero que adoram ser surpreendidos.

O longa, que tem quase duas horas de duração, é baseado na verdadeira história de Kumail Nanjiani, um comediante paquistanês que se apaixona por uma mulher americana, sendo levado a confrontar questões familiares, culturais, profissionais e pessoais para ser capaz de aceitar e viver com a pessoa que ama. Lendo assim o roteiro pode parecer genérico, mas o filme escrito pelo próprio Nanjiani, em parceria com a esposa Emily Gordon, reflete um trajeto importante da vida desses dois, ilustrando conflitos e emoções reais que explicam o uso do famigerado clichê.

A trama, ainda que se apresente simples no início, mostra Kumail morando em Chicago com a família paquistanesa tentando a sorte enquanto trabalha como motorista de Uber e apresentador de stand up. No entanto, essa rotina é alterada quando em um desses shows ele conhece Emily, uma estudante de psicologia que afirma não estar interessada em relacionamentos duradouros, mas que vive arrumando pretextos para reencontrar o que seria o caso de apenas uma noite. A narrativa, que envolve o espectador sem muito esforço, muda rapidamente quando uma tradição interfere no rumo da relação. Por vir de uma família repleta de costumes, é imprescindível que Kumail se case com uma autêntica mulher muçulmana, porém essa omissão pega Emily de surpresa, gerando um grande atrito entre o casal.

Depois que terminam, Emily vai parar no hospital devido a uma doença misteriosa que a aflige. Com isso, Kumail é chamado para acompanhar a ex-namorada, sendo forçado a se passar por marido ao assinar um termo médico que autoriza um coma induzido. Na sequência, somos apresentados aos pais de Emily, Beth e Terry, personagens importantes para o desenvolvimento dos diferentes modelos de família presentes na narrativa.

O título, apesar de potencializar um drama, não perde o frescor cômico que conquista desde o início. Fica claro o intuito da história em se aprofundar nos conflitos ao expor a pressão psicológica que a cultura exerce na vida de Nanjiani, que se vê dividido entre escolher a mulher que ama ou agradar a família paquistanesa, já que quem não segue os costumes acaba sendo expulso dali. Por não conhecer esse lado do filho, a família continua insistindo nos casamentos arranjados, fazendo com que as mentiras sejam cada vez mais ditas. É desesperador assistir ao número de mulheres que a mãe impõe para o personagem enquanto ele sofre pela única pessoa que realmente considera importante.

Como se não bastasse esse conflito, ele também acaba hostilizado por Beth, já que essa mãe protetora reforça o quanto repudia a presença dele enquanto espera a melhora da filha. Todavia, o descontraído Terry quebra gradualmente essa parede erguida, incluindo Kumail nessa nova composição de família unida pelo receio de perder a pessoa que mais amam na vida.

Falar sobre o elenco é um desafio, pois é comprometedor julgar um ator que interpreta a si mesmo na trama que retrata de fato uma prova real de vida. Ele, melhor do que qualquer outro, compreende cada emoção exibida nos 120 minutos de filme. Embora tenha ficado pouco tempo em evidência na telona, Zoe Kazan também merece receber os méritos por conseguir constituir o peso dessa relação logo de início. A atriz foi capaz de vender um amor real que chega de maneira distante e impossível.

Holly Hunter e Ray Romano foram inseridos de forma hábil dentro dessas perspectivas. Ela mostra ser a típica mãe leoa capaz de mover céu e terra para reaver a filha. Na proporção em que ele entra de forma amigável e receptiva na nova equação que envolve os médicos e o namorado da filha. Pouco a pouco essa conexão vai sendo construída, estabelecendo um bonito laço entre os estranhos que se complementaram em um momento inoportuno da vida.

A boa direção de Michael Showalter entrega um ideal equilíbrio entre humor e melancolia, empregando com honestidade e veracidade as emoções vividas. Aqui, o diretor ganha o espectador conduzindo uma história enganosamente simples, que se define como um conto amável de percepção e aceitação entre os envolvidos.

Doentes de Amor carrega uma importante mensagem, transmitida com a delicadeza de um roteiro bem executado por pessoas que entregam uma comovente reflexão de vida. O longa, capaz de emocionar o público com atuações reais e repletas de carisma, tem o desfecho estampado desde o início, todavia os detalhes que compõem a obra tornam única a experiência, resultando em uma comédia autêntica e bem construída.