Crítica | Bohemian Rhapsody

Desde seu primeiro anúncio, ainda em meados de 2010, o filme Bohemian Rhapsody prometia acompanhar a trajetória do Queen, uma das mais icônicas bandas de rock dos últimos tempos. Formada em meados dos anos 1970 por Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon, a banda rompeu barreiras com o público e foi responsável pela criação de canções marcantes que ainda estão fortemente presentes nos dias de hoje.

Com sua produção executiva assinada por May e Taylor, respectivamente guitarrista e baterista do quarteto, o longa passou por um árduo processo de desenvolvimento e foi marcado por inúmeras mudanças em sua equipe, principalmente dadas as divergências criativas entre seus criadores. Uma das principais e cruciais mudanças foi na direção, inicialmente comandada por Bryan Singer e substituída posteriormente por Dexter Fletcher. E em meio a tantos conflitos internos, é praticamente impossível que o produto final não demonstre as consequências dessas questões.

E é entre tropeços e acertos que Bohemian Rhapsody chega ao público. Seria injusto dizer que o longa chega de forma preguiçosa ou mal feita. As composições artísticas e atuações do filme são um deleite aos olhos da audiência, que já entra na sessão com a certeza de que, no mínimo, a trilha sonora não será um problema. Por outro lado, a questão da veracidade que se espera de uma cinebiografia acaba caindo por terra ao passo que pequenos deslizes da cronologia começam a surgir ainda nos primeiros atos. Com isso, o que nos é entregue é uma biografia com um quê de ficcional que, mesmo sem tocar em muitas feridas, envolve e emociona.

Caminhando brevemente pela história do quarteto até o emblemático show beneficente para o Live AID no Wembley Arena no ano de 1985, a compreensível dificuldade de resumir 20 anos em duas horas não justifica a tortuosa linha do tempo de Bohemian Rhapsody, que tropeça em seus próprios fatos. O exemplo mais claro é quando a apresentação da banda no Rock in Rio de 1985 é contextualizada como se tivesse acontecido ainda nos anos 1970.

Esse fator é o que dá o peso da controvérsia entre o que aconteceu de fato e o que se trata apenas de ficção. Mas ok, funciona. A composição da plateia cantando “Love Of My Life” ao fundo enquanto Freddie conversa sobre sua bissexualidade com sua então companheira, Mary Austin, junto a uma direção de fotografia regada de inúmeros truques cinematográficos sutis, conseguem render a audiência àquela “farofinha” típica que no fundo todo mundo gosta.

Bohemian Rhapsody pode não ser o mais completo no que diz respeito a roteiro, mas ele sabe captar bem a essência do que acontece em um palco. Desde a correria da preparação até a sintonia da banda é perfeitamente reconhecida, ainda mais quando unida a movimentos de câmera favoráveis para a captura de todos os acontecimentos simultâneos de uma performance ao vivo. O show do último ato é eletrizante em todos os sentidos e é praticamente impossível não sentir a energia direto da cadeira e querer cantar junto.

A corda bamba na qual o filme se sustenta acaba trazendo mais pontos positivos do que negativos no final das contas. As atuações e caracterizações são extremamente convincentes e a direção sabe brincar com a não-seriedade de seus personagens. A narrativa também não abre espaço para muitas lamentações. A sensação é a de que foi feita para que aqueles que estão fortemente envolvidos na trama não precisassem passar pelo processo de revivê-las. Simplesmente porque talvez não queiram mesmo e, a essa altura do campeonato, nem sejam mais obrigados a isso, de qualquer forma.

Algo a se destacar sobre Bohemian é a questão de que não se trata de uma biografia de Freddie mas, sim, da banda Queen como um todo. É claro que a figura de Mercury não era discreta ou desinteressante o suficiente para ter seu tempo de tela igualado ao de seus colegas, mas o filme é cauteloso com suas abordagens. Tanto que o ato em que é retratada a carreira solo do vocalista passa praticamente batido na narrativa – ainda mais com a questão de quebra da linha do tempo original.

Além disso, tem o tratamento bastante superficial de sua vida amorosa, algo que o cantor nunca fez questão de expor. Essa cautela talvez se dê ainda pela questão do filme não vir com a missão de trazer respostas para certas perguntas ou de trazer detalhes da vida privada de pessoas que não terão mais a chance de se pronunciar sobre elas. De um modo ou de outro, a projeção equilibra e apazigua os ânimos sem se comprometer a ponto de jogar novas polêmicas no ar.

Bohemian Rhapsody entrega o que lhe cabe sustentando-se nas principais canções do Queen e abrindo mão de qualquer comprometimento que poderia surgir a partir de uma abordagem mais profunda de seus personagens. Contudo, o longa não é medíocre. A produção em torno de suas sequências entregam um resultado interessante de se acompanhar, com destaque ao ato final, que certamente cumpre a promessa de cativar o público tanto musical, quanto cinematograficamente sendo um grande show à parte.