Dear White People | A polêmica, incrível e necessária nova série da Netflix

Em sua primeira temporada, Dear White People (Cara Gente Branca, título no Brasil), nova série da Netflix que trata da realidade de estudantes negros matriculados em uma faculdade de maioria branca, consegue realizar em dez episódios um feito que muitos programas maiores e com um hype bem mais elevado apenas tentam: criar um mundo autocontido, detalhado, que em parte reflete a nossa realidade e, após isso, nos deixar vagar por ele refletindo sobre situações que geram conflito e polêmica com muito humor e propriedade.

O trunfo da série é não ter apenas um cenário e uma história, e sim optar por nos demonstrar uma filosofia narrativa própria, uma visão de vida. Isso é tão raro em qualquer forma de arte que até mesmo os aspectos menos “sutis” do show (e já adianto que são muitos) nos parecem características que constroem cada personagem ao invés de serem algo que incomoda.

Como já dito anteriormente, o objetivo aqui é focar nos alunos predominantemente afro-americanos que vivem em uma das casas do campus de uma escola da Ivy League americana chamada Universidade de Winchester. Estes alunos negros representam uma pequena porcentagem do corpo estudantil, porque muitos deles são provenientes da classe média (e ao menos um deles é birracial).

A palavra “etiqueta” vem à tona em muitos momentos na série. A protagonista, Samantha White (Logan Browning) insiste em seu programa de rádio no campus que diz, “a raça é uma construção social”, e a série trabalha de forma a confirmar isso em muitos momentos e também negar em tantos outros. A conclusão sempre depende de quem está fazendo o discurso naquele momento e o que está em jogo para eles, o que nos faz pensar que seria um erro descrever Dear White People principalmente como um show sobre relações raciais, embora esse assunto esteja certamente em foco durante toda a temporada e nunca esteja longe do centro de sua história. A série funcionaria mais como uma grande reflexão sobre a forma como nos vemos e somos vistos, levando em conta todas as forças sociais e políticas que moldam quem somos ou pensamos que somos.

Além disso, há notória preocupação em demonstrar a relação desequilibrada entre aqueles que têm poder e aqueles que não têm – e, mais importante ainda que isso, entre aqueles que têm poder, mas não percebem ou reconhecem que o tem, e acabam utilizando esse poder para o bem ou o mal sem perceberem que estão fazendo isso.

Falando um pouco sobre os personagens da série, como já dito anteriormente, a apresentadora do programa de rádio acima mencionado é Samantha White, mais conhecida como Sam. Ela é uma agitadora que luta pelos direitos civis, espaços seguros e uma maior sensibilidade administrativa em prol dos estudantes de cor, mas muitas vezes parece inconsciente de seu próprio privilégio como uma mulher de pele mais clara e está secretamente namorando um cara branco chamado Gabe (John Patrick Amedori). (Por que secretamente? Porque ela sabe que Gabe é ruim para a sua “imagem” perante seus parceiros de causa, principalmente.)

Gabe está sinceramente apaixonado por ela e quer ser seu aliado e parceiro, e há muitas cenas dele ouvindo as conversas que rolam entre os estudantes negros, mas não falando ou acrescentando nada à discussão simplesmente porque ele sente que não tem nada a acrescentar, ou teme que tudo o que ele poderia dizer apenas puxaria o foco para ele e seu privilégio de ser um homem branco, como é destacado na série em diversos momentos.

Felizmente a série trata Gabe como uma voz dentre muitas, com seu próprio ponto de vista sobre as situações e suas próprias contradições e pontos cegos. O tratamento diferenciado que a série dá às visões de Sam e Gabe é característico de sua abordagem mente aberta da narrativa. Os personagens nunca são apenas uma coisa, e muitas vezes o rosto que apresentam ao público, e até mesmo aos amigos próximos, não representa inteiramente quem eles são. Um exemplo disso é Coco Conners (Antoinette Robertson), que trafega entre uma mulher ambiciosa e manipuladora e, ao mesmo tempo, intrigante e carente. Além do estudante de jornalismo Lionel Higgins (DeRon Horton), que é um nerd tímido que desabrocha e se desenvolve de forma única durante os dez episódios.

Por fim, vale citar Troy Fairbanks (Brandon P Bell), filho do reitor e uma estrela política ascendente, mas que no fundo se mostra como alguém que realmente não se importa com nada, além de satisfazer seus apetites e ganhar a aprovação de seu pai. Todas as ideias iniciais dos personagens são desconstruídas e reconstruídas ao longo da temporada, de modo que assim que nos acostumamos a uma perspectiva diferente sobre esses estudantes que pensávamos conhecer, Dear White People nos dá uma terceira e, em seguida, uma quarta perspectiva que os aprofunda um pouco mais e nos mostra o quanto as coisas são mais complexas e confusas do que parecem, e isso é incrível.

De todos os personagens apresentados na série, o mais fascinante é Reggie Green (Marque Richardson), um manifestante cuja raiva e sensibilidade ferida chama a atenção de Sam. Ele é justo, e o roteiro o posiciona mais ao lado Malcolm X do eixo dos direitos civis, seu magnetismo atraindo Sam para o radicalismo, mesmo quando personagens como Coco e Troy insistem em que podem mudar o sistema de dentro, desde que pratiquem uma versão de respeitabilidade política e incentivem outros estudantes de cor a fazerem o mesmo.

Reggie, também, revela-se mais do que um emblema de um ponto de vista particular. Ele tem um lado auto compassivo e, mesmo que involuntariamente, fetichiza sua alienação pelo que considera correto, chegando às vezes até a utilizar seu trauma – apresentado belissimamente no incrível quinto episódio dirigido pelo premiado Barry Jenkins, vencedor do Oscar 2017 por Moonlight: Sob a Luz do Luar – e raiva para parecer mais atraente. Nenhum desses detalhes invalida suas posições, eles apenas aprofundam seu caráter.

Um dos maiores trunfos de Dear White People é o fato de os roteiristas estarem lidando com cenários que sempre foram uma parte da vida americana. As batalhas específicas apresentadas neste show tiveram alguma equivalência na década de 1980, quando Spike Lee dirigiu School Daze. E, naturalmente, eles estavam no âmago dos anos 1960, quando facções dentro da esquerda americana em geral, e dentro do movimento dos direitos civis negros especificamente, discutiam se o sistema podre e racista deveria ser subvertido ou despedaçado, ou manipulado de dentro.

Tal qual How to Get Away With Murder, Big Little Lies e outras séries cronologicamente fraturadas, Dear White People olha para um evento específico via múltiplas perspectivas (há realmente dois grandes eventos aqui, uma festa temática de Halloween blackface e um incidente de brutalidade policial). Revisitamos momentos de outras perspectivas, às vezes começando e terminando o momento em um lugar diferente. Às vezes você ouve um momento, mas não o vê, ou vice-versa.

A série é baseada em um filme independente de mesmo nome, mas ao invés de simplesmente recontar uma mesma história com novos atores, o roteiro se aprofundou no que fez o filme ser aclamado e reconhecido. A série trabalha duro para desenvolver a sua própria estética, e ficamos bem felizes de constatar que ela obteve êxito em fazê-lo. Como todos os bons programas de TV, ela nos ensina como vê-la e, depois de dois ou três episódios, já começamos a conhecê-la da maneira que faríamos com um amigo próximo. Depois de um tempo, começamos a olhar adiante, reparando nos detalhes que se alteram dependendo do ponto de vista que revelam o que estava acontecendo no outro lado de uma parede, ou o ritual de fechamento de cada episódio, que permite que um personagem possa quebrar a quarta parede e parecer nos olhar diretamente nos olhos.

Esta é também uma série com muitos diálogos rápidos, muitas vezes didática, mas nada que prejudique o andamento das histórias ou realmente nos incomode. O estilo que satiriza e ataca os problemas sociais frontalmente agrada e nos faz refletir sobre nossos direitos, privilégios, preconceitos sofridos e praticados. Ainda há momentos em que os personagens soam muito parecidos uns com os outros, e não apenas porque eles provavelmente estão lendo os mesmos livros didáticos ou assistindo os mesmos seriados – a.k.a. a melhor paródia já feita do seriado Scandal, da ABC, chamada Defamation.

Para cada situação de alerta e/ou hilária (um estudante negro diz de um incidente racista: “eu pensei que este tipo de coisa só acontecia nos anos 1950 ou em artigos BuzzFeed”), há uma problematização pertinente (no meio de um caso de brutalidade policial que ocorre em um episódio, um estudante comenta: “nós precisamos fazer o que foi feito na Alemanha. Quero dizer, educar as crianças sobre o passado horrível do nosso país, não a, hmm, parte dos campos de concentração.”).

É importante salientar que há momentos em que a série parece estar fazendo visões claramente metacríticas e ataques preventivos contra a crítica, embora alguns deles sejam tão inteligentes que nos fazem rir de qualquer maneira. Entretanto, essas situações são quase irrelevantes se comparadas com o quão magnificamente a série apresenta todos os seus personagens, situações e temas, e, em seguida, segue através deles. Seus primeiros dez episódios voam e a temporada termina tão ordenadamente que estou inclinado a desejar que a trama não tenha uma segunda temporada para que a Netflix não corra o risco de estragar a perfeição com que tudo foi feito e todas as discussões e temas que foram abordados.

No fim, o saldo é mais do que positivo. Dear White People entra para o hall das séries obrigatórias por sua relevância, representatividade e principalmente capacidade de contar uma história que precisa ser compartilhada pela humanidade. Mais uma vez: obrigado, Netflix.