Animaction | O Fantástico Sr. Raposo

Sejam todos muito bem-vindos ao primeiro filme de stop motion dirigido por Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste, Moonrise Kingdom e muitos outros filmes maravilhosos.)

O longa, baseado na obra Raposas e Fazendeiros de Roald Dahl (mesmo autor de A Fantástica Fábrica de Chocolates), já nos chama atenção nos primeiros minutos pela qualidade da animação, que propositalmente trabalhou com 12 frames por segundo ao invés dos já tradicionais 24, e pelo belo visual gráfico. Não é um filme para fazer rir, ainda que o faça, não é filme sobre consciência ambiental, ainda que funcione como tal. É, na minha opinião, um filme sobre a busca pela identidade com foco nos relacionamentos e dramas familiares.

O Sr. Raposo (voz de George Clooney) é um hábil ladrão de galinhas, patos e outras aves criadas nas fazendas que ficam na vizinhança de sua toca. Ele decide mudar de vida quando, após uma quase tragédia numa de suas invasões, sua esposa Felicity (voz de Meryl Streep) o conta que está grávida de seu primeiro filho. O Sr. Raposo promete para ela que nunca mais irá invadir uma fazenda para caçar aves de novo. Ele se torna um malsucedido jornalista que escreve uma coluna que ninguém lê.

As coisas começam a mudar perigosamente quando, 12 anos de raposa depois (três anos humanos), o Sr. Raposo quebra essa promessa logo depois dele e sua família mudarem de toca. A nova vizinhança irá despertar no Sr. Raposo a sua verdadeira natureza, a de um animal selvagem guiado apenas pelo instinto natural de sua espécie, de caçar e roubar aves. Em um dos diálogos ele questiona: “Como uma raposa pode ser feliz sem ter uma galinha em seus dentes?“. O peso da culpa de ter colocado toda sua família e seus vizinhos em perigo o leva à reflexões existencialistas acerca do real significado da liberdade, que não seria real, uma vez que é dominado não pela razão, mas pelo instinto.

É curioso como a questão da identidade é abordada no filme. Podemos observar os personagens humanos em diversos momentos apresentando comportamentos animalescos, como na cena em que um dos fazendeiros destrói o próprio escritório em um surto de raiva. Em outra cena, nos deparamos com o Sr. Raposo na mesa de café da manhã lendo os classificados no jornal, vestido com uma camisa branca e gravata listrada, totalmente humano, e de repente ele avança, como animal que é, sobre o café à mesa, destroçando em segundos as panquecas que sua mulher serviu.

Se em Os Excêntricos Tenenbaums Wes Anderson analisa como os indivíduos são determinados por características forjadas por traumas e acontecimentos da infância, neste ele nos induz à reflexão sobre o livre arbítrio e da influência do instinto animal em nossas reações na vida. Definitivamente um tema bem profundo que atrai os já fãs de Anderson bem mais do que os desse tipo de animação “fofinha”. Mesmo assim, acredito que todos devam dar uma chance para este filme, pois irão se identificar de alguma forma.