Jukebox | Lana Del Rey – Lust For Life

Os álbuns de Lana Del Rey são projetos desenvolvidos por meses, ou anos, com uma história de fundo e uma produção que muitas vezes pode ser assemelhada a alguns filmes, exceto, talvez, por possuírem uma única personagem. Seu palco tem apenas um destaque: sua visão dos temas que aborda e a trama geralmente traz vestígios de amores e estradas abertas, o que sempre foi muito interessante e instigante de se apreciar.

No entanto, em 2017, Lana Del Rey reapareceu fazendo feitiçaria contra Donald Trump, entretanto podemos ver em suas canções que algumas poucas rachaduras de sol estão espiando através da sua aura de escuridão. Seu quarto álbum de estúdio, “Lust For Life“, abre com a melodia pneumática de “Love“, uma música calma e cheia de satisfação pessoal, talvez uma das mais felizes que ela já escreveu. O que surpreende neste álbum é que, pela primeira vez, há artistas convidados entre as faixas, representando um já bem estabelecido espectro de inspirações sonoras e criativas: The Weeknd, Stevie Nicks, A$AP Rocky, Sean Lennon e Playboi Carti.

Em “Coachella – Woodstock in My Mind“, Del Rey flerta com o som de Father John Misty e seu próprio processo de composição em tempo real. A canção é ritmada, com um som grave de baixo por toda sua duração, o que torna o resultado previsivelmente estranho, mas não importa, porque “Coachella” está muito ocupada prestando homenagem à “Stairway To Heaven” do Led Zeppelin.

É importante salientar que Lana Del Rey reinventou-se apenas uma vez. Sua música vem com certas constantes, o que está longe de ser negativo neste caso. “Lust For Life” é um espetacular álbum de 72 minutos de duração que tem efeito simultaneamente atômico e narcótico, graças ao excelente trabalho vocal e de produção da cantora e extremo cuidado de seu produtor, Rick Nowels.

No lugar do combo voz e violão de “Ultraviolence” e das cordas soporíferas da “Honeymoon“, Lust For Life” tem alguns sintetizadores turbulentos e sons mais naturais, como o do vento. “13 Beaches” é uma das faixas notáveis do álbum, que valoriza esses elementos e traz o que mais gostamos de ouvir nos trabalhos de Lana, o sentimento por detrás de cada verso e eco de suas canções.

Mas é sabido que é necessário um pouco de experiência em seu estilo para apreciar as canções como se deve. Lana sempre foi um espírito livre em suas composições, e neste álbum ela aprecia sua posição como uma espécie de meio cultural em que todos estamos inseridos. “Beautiful People, Beautiful Problems” se estabiliza nos vocais ricamente aprimorados de Stevie Nicks e a própria música (na qual Nicks recebe um crédito de co-escritora) é uma homenagem brilhante do estilo.

Quando somos agraciados com versos como “But when I love him get a feeling/Something close to like a sugar rush“, quase nos vemos desejando que elas tivessem gravado um álbum inteiro juntas. Paralelamente, “Tomorrow Never Came“, o dueto de Del Rey com Sean Lennon, parece uma tentativa gravemente óbvia de trazer de volta a vibe de seu pai, John Lennon. O sentimentalismo enfraquece um pouco a canção, entretanto a composição ainda se mostra poderosa e cativante.

Neste álbum, Lana nos traz o que podemos classificar como a atualização de 2017 de sua canção “National Anthem“, que é “God Bless America – And All the Beautiful Women In It“, além da canção seguinte chamada “When the World Was At War We Kept Dancing“, a qual a cantora questiona sobre o futuro de seu país: “Is it the end of an era?/Is it the end of America?“. A lista de faixas exaustivas com participação do rapper A$AP Rocky a força a ativar “Summer Bummer” para competir contra o seu próprio verso mais fraco sobre “Groupie Love“, o que acaba gerando um conflito desnecessário sequencial e enfraquece um pouco o álbum como obra completa.

Falando um pouco sobre minha canção favorita do álbum, a balada decadente e gótica de vingança “In My Feelings“, supostamente inspirada por um caso com o rapper G-Eazy, a letra é bem crua (“Estou chorando enquanto estou gozando“) e traz uma Lana um pouco diferente do que eu conhecia, principalmente porque nunca a vimos lamber suas feridas tão vividamente. “Who’s tougher than this bitch?/Who’s free-er than me?“. Ela sussurra em uma harmonia de respiração que parece genuinamente possuída.

Por fim, vale destacar “Change” e a mística “Get Free“, canção que encerra o álbum com segurança. “This is my commitment/My modern manifesto“, ela declara antes de perseguir uma metáfora prolongada sobre seguir o arco-íris. E assim o álbum finaliza com o corte dos zumbidos e do som de gaivotas cristalinas, que nos fazem sentir como se estivéssemos realmente no horizonte testemunhando todo esse turbilhão de sensações que só um álbum como “Lust For Life” consegue nos despertar. Não é o melhor da cantora, mas é inegável que se trata de um álbum notável que merece ser apreciado.

Espero que você deixe nos comentários o que achou do álbum e, principalmente, o que achou da coluna. Além disso, entre em nosso grupo no Telegram para poder opinar e ajudar a escolher o tema da próxima semana. Grande abraço!