American Horror Story: Cult | 7×01 – Election Night

Depois de passar um tempo considerável longe das análises de American Horror Story, resolvi que era hora de voltar e assumir que a série ainda é o meu show favorito no ar. Eu parei de partir em defesa dela como um fã cego tem uns três anos, pois descobri que enquanto ela existisse como retrato de cobrança e ódio gratuito aos seus showrunners, continuaria sofrendo ataques. Mas não vamos entrar nesse tópico (por hora). Afinal, estamos aqui para falar da estreia de Cult e eu já posso adiantar que desde o começo de Freak Show eu não ficava tão empolgado com um novo fascículo dos tios loucos Ryan Murphy e Brad Falchuk.

Para entender a relevância de Election Night, primeiramente precisamos compreender e aceitar que estamos numa época onde absolutamente tudo reflete o nosso atual período político. Logo, a cultura pop não pode – e nem deve – se abster de comentar o que o mundo vem enfrentando. American Horror Story já falou sobre muita coisa, porém tirando justamente a subestimada Freak Show, nenhuma das outras temporadas usou o comentário político-social como mote principal da sua trama central. Cult, no entanto, já abre com uma colagem que resume a maluca corrida que levou Trump ao poder e, numa cold open mais assustadora ainda, recria no modo caricatural já costumeiro da série como seriam as reações de uma democrata e de um republicano clássicos.

Colocar Sarah Paulson e Evan Peters para polarizarem as características mais exageradas da representação que é esperada da extrema esquerda e direita de um país foi um toque de gênio. Ally e Kai, à primeira vista, são só estereótipos, o que acaba trazendo um humor incomum ao cânone da série. Só que mais adiante ao desconstruir alguns aspectos dos personagens, o roteiro estabelece o tema da temporada de um jeito certeiro entregando que o culto à política do medo moverá as engrenagens do sétimo ano. Ao levar os Mayfair-Richards – Ally, sua esposa Ivy e o seu filho Oz – de encontro aos Anderson – os irmãos Kai e Winter –, acabamos tendo automaticamente mais polos numa temporada que focará justamente nos opostos em rota de colisão.

Resgatando o que deu certo na excelente Roanoke, Cult também mostra que, apesar da trama ambiciosa, estaremos conectados a núcleos pequenos e não a uma verdadeira orgia de personagens desnecessários que no passado transformou Hotel na pior temporada da série. Cult é toda sobre polos e sobre o medo que leva a polarização de visões políticas diante do horror da nossa realidade. Não caberia fantasia aqui e espero muito que não tenhamos nenhuma. Se descaracterizar durante a temporada já é um clássico em American Horror Story, porém eu quero acreditar que Murphy e Falchuk aprenderam com antigos erros.

Mas se eu não espero fantasia nesta temporada, vocês podem se perguntar: como é que teremos horror? A resposta está no fato não menos ambicioso de que todas as antologias que compõe American Horror Story se passam no mesmo universo. Então basta pegarmos as fobias de Ally, um possível culto ao saudoso palhaço Twisty de Freak Show – esse detalhe não fica claro, mas acredito que seja um culto sim – e um monte de homenagem ao gênero de invasão domiciliar nos filmes de terror que a receita para aterrorizar os coulrofóbicos de plantão está pronta.

O design das criaturas que povoam o extenso universo da série é sempre um show à parte, mas particularmente fiquei assombrado com as máscaras da gangue de palhaços que aterrorizam Ally no supermercado. Quando o grupo volta a aparecer na última cena, a sensação de que mais um icônico exemplar de monstros povoarão o imaginário popular depois desse ano já começa a tomar forma. Somado a tudo isso vem a macabra trama que traz a babá de Oz, vivida pela ótima Billie Lourd. Winter pode até não se distanciar muito da Chanel #3 de Scream Queens, mas só a sua presença é o suficiente para transformar o plot num dos must-see da temporada.

Política, divertida, incômoda e assustadoramente atual, Cult vem para mostrar que se faz necessária ao abraçar um lado humano que eu sempre achei distante em American Horror Story. A máxima da Murder House que estabelecia que todos os monstros eram humanos nunca foi tão verdadeira. É chegada a hora de vê-la colocada em prática.