Marvel’s Inhumans | Tudo aquilo que uma série de herói não deveria ser

Crítica positiva ou negativa alguma pode preparar o espectador para o primeiro episódio de Marvel’s Inhumans. Mesmo com o público empolgado ou não para conferir esta tão comentada série, nada vai tirar a experiência própria sobre o que é este capítulo inicial. A série conta a história de humanos que tiveram seus antepassados, muitos séculos atrás, como cobaias em experiências dos alienígenas Kree e que, em contato com a terrigênese, são transformados em Inumanos, seres com poderes e/ou aparência diferente da raça humana normal.

A primeira cena do episódio piloto já mostra como o elenco desta nova história é fraco e mal dirigido. Quando dois personagens que nos introduzem ao começo da trama conversam, a sensação que fica é a de que estão com o roteiro em mãos, lendo um para o outro e esperando a sua deixa para falar. É uma cena de perseguição e os atores não passam emoção alguma sobre o perigo que correm. Além disso, esta cena em questão apresenta um bom começo de ação que engana o público e nos faz achar que tudo vai ser feito daquele mesmo jeito… mas é mera ilusão. A impressão é de que o recurso IMAX é utilizado apenas aqui e em mais nada.

Outro ponto a ser levado em consideração quando se fala em cenas de ação são as lutas do episódio. Todas são mal coreografadas, deixando as sequências bastante artificiais e mostrando que quando não conseguem utilizar bem uma coreografia em qualquer série, o resultado pode ser desastroso. E em Marvel’s Inhumans este erro é tão visível que acaba condenando as cenas e entregando ao espectador o quão falho aquilo é.

Vamos analisar agora o elenco principal, que também é problemático e não tem carisma algum. Quando assistimos um episódio piloto, independente se o resultado final para nós for positivo ou negativo, sempre nos importamos com determinado personagem durante o tempo de exibição. No caso de séries de heróis, tendemos a torcer por eles para que tudo dê certo… Mas aqui isso não é possível, pois é complicado se importar com qualquer um deles.

A única personagem que consegue se destacar um pouco, talvez por ter um tempo maior de tela, é a Medusa (Serinda Swan). É nítido que ela é a mais experiente entre todos os atores, e tenta nos mostrar um lado mais emocional tanto da história quanto dos personagens que a rodeiam, inclusive do Raio Negro (Anson Mount). O Rei de Attilan, por não falar e precisar passar tudo o que sente sem palavras, deveria ter sido melhor escalado. O ator não apresenta um trabalho que faça jus a um rei super-herói e fica apenas com cara de “dor de barriga” o tempo todo, chegando até ser irritante em certos pontos.

Uma expectativa muito grande girava em torno de Maximus. Por conta de Iwan Rheon ter feito o personagem Ramsay Bolton em Game of Thrones, um dos vilões mais marcantes da série, o ator tinha tudo para nos mostrar mais uma vez “como se faz um vilão”, mas ele fica no “quase” o tempo todo e, assim, acaba se igualando ao mesmo nível de todo o elenco da série.

Mas um dos maiores problemas apresentados neste início de Marvel’s Inhumans é o roteiro, que também tem sérias dificuldades. A série menciona os acontecimentos de Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D. sobre os Inumanos, porém não dá ao espectador uma base inicial sobre o motivo de eles estarem em uma cidade na lua, o porquê de essas pessoas viverem lá e de onde se originou seus poderes. Também não mencionam a razão pela qual o reino é dividido em castas e por que ele existe.

Só quem leu um pouco mais sobre a origem dessas pessoas é que vai conseguir se localizar direito na história. Por ser uma série nova e de um “grupo” que foi pouco explorado na TV e no cinema, o necessário era que tudo fosse bem explicado, pelo menos aos poucos, sobre como aquilo surgiu. Ao invés de introduzirem o espectador de forma coesa e clara neste novo universo que estão TENTANDO construir, a trama é jogada de qualquer forma e a série não faz questão em mostrar como tudo começou, mas já quer que a pessoa que esteja assistindo se importe em como as coisas podem desmoronar. Os poderes de Karnak (Ken Leung) e Crystal (Isabelle Cornish) são mal explicados e apresentados, assim como o porquê de Maximus não ter também certos dons.

E, por fim, algo que mais intrigava quem queria ver a série eram os efeitos especiais, inclusive o cabelo da Medusa. E para a grande surpresa, os efeitos não foram tão ruins quanto todos imaginavam. O cão Dentinho é aceitável e o cabelo da Medusa pouco incomoda, já que a atriz nos convence. Mas como nem tudo são flores, o grande cabelo dela tem certos momentos de incoerência: em alguns pontos ele é realmente comprido e parece ser bem maior que ela, já em outros, quando a peruca é utilizada, ele parece ter metade do tamanho que deveria ter.

Mas o pior de tudo é o argumento que usam para o cabelo da Medusa não aparecer mais: ele é totalmente raspado! Sim, o único poder que a rainha possui e que todos queriam ver em ação, é literalmente cortado para não ser mais utilizado. O cachorro Dentinho, em certo ponto, é preso para que não apareça mais e as patas do Gorgon (Eme Ikwuakor) são enfiadas de algum jeito dentro de uma bota de pés normais. Isso nos faz lembrar que a série já possui diversos problemas sem ser os efeitos especiais, e eles resolvem ainda eliminar as únicas coisas que poderiam atrair o público a continuar assistindo.

Marvel’s Inhumans é um compilado de coisas que não devem ser feitas na TV, como atuações ruins, textos tão medíocres quanto seus atores, efeitos questionáveis, saídas toscas de certas tramas e falta de empatia com seu público para explicar, nem que seja pelo menos um pouco, sobre essa nova história a ser contada.