Crítica | Pequena Grande Vida

Afinal, qual o nosso propósito aqui na Terra? Estamos cuidando bem do que deveria ser o nosso lar? E quanto às futuras gerações? Que tipo de planeta estamos deixando para elas? Como podemos fazer a mudança acontecer se somos tão pequenos diante da imensidão do universo? Qual o sentido de tentarmos mudar o planeta se não mudarmos a nós mesmos? Vivendo em uma realidade na qual catástrofes naturais têm respondido a esses questionamentos sobre nossos cuidados com a Terra, está cada vez mais difícil de acreditar que ainda temos chance de reverter a situação. E o filme Pequena Grande Vida pretende trazer esses debates à tona.

No novo filme de Alexander Payne, Matt Damon é Paul Safranek, um terapeuta ocupacional que desde sempre serviu para cuidar dos outros. Ele tem uma vida mediana com sua esposa, Audrey (Kristen Wiig), que não falta, mas também não sobra. Agora, o casal está se programando para tentar comprar uma casa nova que se encaixe no orçamento deles. O principal desejo deles é tentar sair da mesmice de suas rotinas, e é durante um evento de reencontro da turma do colégio que o casal encontra a solução: encolhimento.

O método, que começou a ser desenvolvido na Noruega anos antes de sermos apresentados ao protagonista, é apontado como a solução para o problema de superpopulação do planeta. Isso porque a experiência mostrou que a comunidade encolhida poluía muito menos do que a população “normal”. Além disso, por serem menores, a economia também se alteraria e os custos seriam reduzidos, já que passariam a consumir menos. E de acordo com a conversão monetária, aparentemente todos que resolvessem adotar ao encolhimento passariam a ter o estilo de vida dos ricos e famosos. Aparentemente.

No entanto, após a transformação, enquanto usufrui dos benefícios do processo com a ajuda de Dusan, seu vizinho festeiro e bon vivant interpretado por Christoph Waltz, Paul conhece também um lado do mundo dos pequenos bem comum no mundo real: a desigualdade. Embora o processo fosse vendido como a oportunidade de melhoria de vida, seria ingênuo acreditar que isso valeria para todos igualmente. Digamos que, na verdade, seja a prática daquela velha sabedoria popular: o de cima sobe e o de baixo desce.

E é ao reconhecer Ngoc Lan Tran (Hong Chau) da notícia de que ela foi submetida ao encolhimento como punição do governo que o protagonista é apresentado à realidade obscura daqueles que, mesmo após o encolhimento, continuaram sofrendo com a desigualdade social. A partir daí, Paul passa a conhecer a rotina de sua nova amiga e a ajudá-la nas tarefas diárias, já que ainda que passe suas próprias dificuldades, ela não abre mão de ajudar ao próximo.

Por mais que a premissa seja interessante, ao chegarmos neste ponto onde Paul começa a ajudar Ngoc Lan nos afazeres, dá a impressão de que outro filme começou. Isso porque durante primeira metade do longa a narrativa se sustenta na veia cômica, quase como uma sátira de ficções científicas do gênero. No entanto, conforme o protagonista presencia o submundo dos encolhidos, a trama passa a seguir um caminho diferente, para um contexto social.

Assim como este texto, outra questão relacionada ao encolhimento é deixada de lado e retomada somente na metade do segundo ato: o propósito de tentar salvar o planeta. Por mais que o assunto entre em pauta durante alguns momentos, o filme deixa claro que os adeptos ao experimento, na verdade, o fazem apenas pelo estilo de vida. E esse questionamento volta à tona já no terceiro ato, quando a projeção – como se não bastasse – caminha para um contexto apocalíptico.

É triste precisar admitir que Matt Damon e seu espanhol encantador (sim, ele fala em espanhol em diversos momentos do filme) não sustentam a narrativa confusa e, de certa maneira, desconexa de Pequena Grande Vida. O filme ganha por seu elenco, mas perde pela exploração esbaforida de diversos assuntos ao mesmo tempo. No fim das contas, a projeção entrega ao espectador uma história que tinha potencial para se aprofundar com eficiência em sua premissa, mas acabou se perdendo ao tentar abraçar o mundo com as pernas – literalmente.