Desventuras em Série | 2×01/02 – Inferno no Colégio Interno: Volumes 1 e 2

Se você achou que uma temporada era suficiente para contar todos os infortúnios vividos pelos mais desafortunados órfãos de que se tem notícia, você se enganou. E antes de mergulharmos na história, vamos dedicar essas linhas para exaltar a incrível atuação de Neil Patrick Harris como Conde Olaf, que está sendo capaz de superar a de Jim Carrey. Exaltaremos também a maravilhosa direção de arte deste seriado que tornou o universo de Desventuras em Série, com cenários e personagens por vezes tão irreais, possível e plausível e ainda assim completamente lúdico alternativo como deve ser. Lemony Snicket retoma então a sua narrativa, trazendo para nossas telas os tristes fatos da época em que os órfãos foram levados por um ingênuo e, de certa forma, negligente Sr. Poe para a Escola Preparatória Prufrock.

Lá eles sofreram todo tipo de atrocidades que são passíveis de acontecer em uma escola: bullying, comida ruim, infraestrutura péssima, professores sem noção, vice-diretor egocêntrico e maluco… E outras passíveis de acontecer apenas com órfãos: ter que dormir em um barracão cheio de fungos e caranguejos por não terem pais para assinar a autorização que permite usar os dormitórios normais, serem proibidos de usar a biblioteca – que só fica aberta por dez minutos ao dia – para encontrar um livro que responderia a maior parte de suas questões, terem as mãos amarradas nas costas e comer a comida como bichos caso cheguem atrasados na aula, sofrerem bullying personalizado (falaremos disso depois) e ter um vilão do mal – que deseja a fortuna deles mais do que qualquer outra coisa – disfarçado de professor de educação física, os obrigando a correr em círculos incessantemente todas as noites. E depois as pessoas ainda se questionam o porquê de existir evasão escolar.

Agora que já temos o panorama geral desses dois episódios, vamos aos detalhes, que são muito importantes não apenas para entender essa história, mas também para apreciá-la por completo. Em primeiro lugar, é de praxe falar da dedicatória que sempre irá começar assim: “Para Beatrice…”. Você pode não saber o que virá depois, mas uma das poucas certezas que terá é de que, independente do que for, será triste, uma vez que essa tal está morta e alguém que ainda vive sofre por amá-la. Mas, afinal, quem raios é Beatrice e qual é a importância dela para a história? Ninguém sabe ainda. Então é aconselhável que você anote essa pergunta em seu caderninho e o deixe à mão, pois muito mais dúvidas surgirão. Como por exemplo: vocês notaram a presença de um despretensioso açucareiro na abertura do episódio 1? Não? Será que ele tem algum papel nessa trama desafortunada? Quem sabe…

É impossível fazer este texto sem mencionar mais um detalhe posto no primeiro episódio apenas para o deleite dos já fãs dos livros e/ou seus conhecedores. Logo no início do episódio, o Sr. Poe está contando a história de três irmãos cuja vida é um mar de aventuras divertidas onde nada de ruim lhes acontece. É claro que essa não é a história dos Baudelaire, mas sim a história de um livro que Sr. Poe está lendo, que se chama A Pândega do Pônei – primeiro volume de uma coleção chamada As Crianças Mais Sortudas do Mundo!. Quem conhece a coleção de livros que deram origem à série e já teve a oportunidade de ter em mãos um exemplar da Autobiografia Não Autorizada de Lemony Snicket sabe que A Pândega do Pônei é apenas uma capa de disfarce para a autobiografia, a fim de que não caia em mãos erradas. Olhando ainda com mais calma para a capa desse livro fictício, veremos que sua autora se chama Loney M. Setnick, uma brincadeira com as letras do nome do autor Lemony Snicket. É uma pena que na série o Sr. Poe esteja lendo de fato a história das crianças mais sortudas do mundo e não a autobiografia já mencionada, que seria de muito mais ajuda para nossos queridos órfãos desafortunados.

Voltando agora para a Escola Preparatória Prufrock. Realmente é um lugar deplorável, que combina perfeitamente com a série de infortúnios que estão acontecendo com os irmãos Violet, Klaus e Sunny (que deu uma espichada enorme). O lema da escola é a frase latina Memento Mori, que significa “lembre-se de que morrerás”, e seu mascote é um cavalo morto. Esses dois aspectos mórbidos, unidos à deplorável figura do vice-diretor Nero – obcecado por violinos, mesmo não sabendo tocar -, já seriam suficientes para tornar a estadia dos órfãos nesse lugar já muito desagradável. No entanto, como tudo que está ruim pode ficar pior, os órfãos terão que lidar com uma das figuras mais desagradáveis da série, perdendo – talvez – apenas para o Olaf: Carmelita Spats. Uma menina que adora sapatear – inclusive na cara dos outros -, invejosa e que acaba se unindo a Olaf (disfarçado do treinador Genghis) contra os órfãos.

No meio de tanto caos, há alguma esperança. Alguns voluntários, dentre eles Jacquelyn (a secretária do Sr. Poe, que já ficou muito na cara que não é secretária coisa nenhuma) e Larry, “seu garçom”, que já ajudou os órfãos quando estiveram no Lago Lacrimoso, estão fazendo de tudo para encontrá-los e lhes entregar A História Incompleta das Organizações Secretas. Embora seja um esforço louvável, seria muito mais útil que eles tirassem os órfãos dali e contassem a verdade (seja ela qual for) eles mesmos. Claro que seria muito fácil resolver as coisas desta maneira, e por isso mesmo que não acontece assim. Inclusive a tentativa de Larry de entregar o livro para os Baudelaire falha e ele se vê literalmente numa fria, sendo salvo por Jacques Snicket, um personagem novo, mas também muito importante para a história. (É certo que quando ele apareceu alguns fãs mais eufóricos do livro deram gritinhos de emoção).

Além desses voluntários, a ajuda veio também da bibliotecária da escola e de dois alunos muito especiais: os trigêmeos Quagmire. Nós já fomos apresentados a eles na primeira temporada, são os filhos daquele casal que tentava voltar para casa e que alguns podiam jurar ser os pais dos Baudelaire. Um incêndio criminoso também destruiu a casa e a família Quagmire, matando os pais e Quigley, um dos trigêmeos. Os outros dois, Isadora e Duncan, também foram para a Prufrock. E aqui realmente o ditado “há males que vêm para o bem” se encaixa perfeitamente, uma vez que os trigêmeos e os Baudelaire tornam-se amigos e aliados. Mas não por muito tempo. Conde Olaf, disfarçado de treinador Genghis, descobre que os Quagmire – herdeiros de robustas safiras – também estão na escola, e é claro que tentará roubar essa fortuna para si. Um fato interessante que fica bem claro agora é que Olaf conhecia os pais dos trigêmeos e possivelmente os pais dos Baudelaire. Como eles estão ligados ainda é um mistério.

Mistério é com certeza a palavra-chave deste seriado que a cada cena nos faz acrescentar mais uma pergunta em nosso caderninho de notas. A última que será registrada neste texto gira em torno de uma sigla: C.S.C. (em inglês, V.F.D.), descoberta no livro – que os Baudelaire não conseguiram ler – pelos trigêmeos Quagmire (dentre outras coisas interessantes). Infelizmente os trigêmeos foram descobertos e sequestrados por Olaf e seus capangas antes que pudessem conversar com os Baudelaire sobre o assunto, tendo tempo apenas para gritarem a sigla várias vezes de dentro do carro que se distanciava. Sem amigos e sem respostas, a saga dos Baudelaire continuará nos próximos dois episódios, dessa vez em um cenário bem mais… “in“.