Análise do 7º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

Terminou na última quinta-feira, 14, em Curitiba, o 7º Olhar de Cinema, festival internacional de cinema que ocorre anualmente na capital paranaense. Este ano o grande vencedor foi o filme esloveno-croata Homens Que Jogam, de Matjaz Ivanisin, que recebeu o prêmio do júri da Mostra Competitiva. A sétima edição do festival exibiu 156 filmes de 46 países em diversas mostras que possibilitam diálogos entre o cinema contemporâneo e o cinema clássico, trazendo questões que tratam do mundo atual.

Com uma identidade forte voltada para o cinema político, social e cultural, o Olhar de Cinema trouxe em sua Mostra Retrospectiva a cinegrafia de Jean Rouch e Djibril Diop Mambéty. Dentro desta mostra, assisti aos filmes Hienas A Viagem da Hiena, ambos dirigidos por Mambéty, cineasta senegalês falecido em 1998. Além de serem filmes magistralmente fotografados, sabendo explorar o cenário natural das filmagens, os longas de Mambéty tratam de questões sociais e culturais de Senegal.

Em Hienas, temos a história de Dramaan, um comerciante de uma pequena vila que vê sua vida e status social mudarem após a chegada de Madame Drameh, uma mulher rica com quem teve um caso no passado. Ela o surpreende ao oferecer uma exorbitante quantia de dinheiro para a cidade, caso alguém mate Dramaan. Assim, a população entra em uma profunda crise ética enquanto Dramaan tenta contornar a situação. De forma primorosa, o filme aborda como a oferta muda a dinâmica na vida do protagonista e de toda a cidade. Já em A Viagem da Hiena acompanhamos dois jovens senegaleses na tentativa de se mudarem para a França, numa obra feita nos anos 1970 que já discute a complexa questão da imigração e dos efeitos do colonialismo europeu.

No entanto, a mostra mais interessante do festival para quem busca inovações ou ao menos alternativas de narrativas cinematográficas é a Novos Olhares, sendo sempre uma surpresa o que podemos encontrar ao entrar em uma das sessões. Nesta edição, conferi duas produções: Expo Lío’ 92, documentário espanhol de María Cañas, e La Película Infinita, documentário de arquivo argentino de Leandro Listorti.

Expo Lío’ 92 aborda de maneira extramente criativa e quase anárquica as mudanças enfrentadas pela Espanha atual. Entretanto, o filme parte da Exposição Universal de Sevilha ocorrida em 1992, que vendia a imagem de um futuro brilhante para este país europeu. Contudo, o documentário apresenta uma Espanha atual desacreditada, com alto desemprego e não sabendo lidar com a imigração de outros países. A síntese do documentário pode ser descrita em uma de suas sequências mais impactantes fazendo um paralelo com Curro, o pássaro mascote da exposição de 1992 que se torna uma gíria para emprego nos dias atuais. Um filme que sabe fazer rir, mas ao mesmo tempo termina com uma sensação agridoce sobre o mundo em que vivemos atualmente.

La Película Infinita é um impressionante trabalho de Leandro ListortiUm filme experimental que reúne trechos de produções argentinas que não foram concluídas por seus realizadores. O debate sobre preservação cinematográfica recebe menos importância do que este assunto merece, o que faz da presença desta obra no festival algo muito positivo. La Película Infinita é uma manifestação de amor ao cinema, pois resgata o que por muito pouco poderia ficar perdido para sempre. A propósito, você já visitou a cinemateca de sua cidade? Sua cidade tem cinemateca? Fica a reflexão.

Destinada ao público jovem e infantil, a mostra Pequenos Olhares, que estreou em 2017, trouxe clássicos como Túmulo dos Vagalumes, animação japonesa de 1988 dirigida por Isao Takahata, falecido no último mês de abril, e responsável pela criação do Studio Ghibli, um dos melhores estúdios de animação do mundo. Túmulo dos Vagalumes se passa no Japão durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Uma sensível história sobre o amor de dois irmãos e sua luta para sobreviver aos horrores de uma guerra. Se passa no Japão da década de 1940, mas poderia muito bem se passar na Síria atual. Uma aula para crianças, mas principalmente adultos, sobre os efeitos da guerra e o porquê a paz é o melhor caminho sempre.

A Mostra Outros Olhares é voltada para discussões sobre o mundo em que vivemos. Assisti uma sessão do documentário norte-americano Você Já Se Perguntou Quem Atirou Primeiro?, de Travis Wilkerson. O documentário poderia muito bem ser um filme de suspense com ares de terror ao mostrar a tentativa do diretor em investigar um assassinato cometido por seu bisavô na década de 1940, mas passa longe de ser ficção e sim um filme sobre a brutalidade do racismo nos Estados Unidos daquela época, que perdura até hoje. Quem tiver a oportunidade de viajar por uma estrada no Alabama após a sessão terá outra experiência do que uma simples viagem, tendo em vista os diversos crimes que ocorriam nelas na calada da noite e à luz do dia.

Dentro da Mostra Competitiva tive a oportunidade de conferir dois filmes, sendo um deles o vencedor, Homens Que Jogam. O documentário esloveno-croata explora diversas questões relacionadas à masculinidade, todas elas envolvendo situações com jogos ou esportes. O comportamento dos personagens apresentados é a questão central do filme, mostrando momentos de agressividade e histeria, mas também leves como um queijo que rola ladeira a baixo em um vilarejo da Sicília devido a um jogo tradicional. Uma observação sensível sobre o comportamento de uma parte da humanidade.

Por fim, confira abaixo a lista de vencedores do 7º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.

COMPETITIVA

Prêmio Olhar de Melhor Filme
HOMENS QUE JOGAM
Playing Men
Matjaž Ivanišin

Prêmio Especial do Júri
SOL ALEGRIA
Sol Alegria
Tavinho Teixeira, Mariah Teixeira

Prêmio de Contribuição Artística
BOA SORTE
Good Luck
Ben Russell

Prêmio Olhar de Melhor Filme Curta-Metragem
A ESTRANHA HISTÓRIA DO PRINCE DETHMER
L’étrange histoire de Prince Dethmer
Corto Vaclav, Hadrien La Vapeur
*Menção Especial: ELES VÊM AÍ! (¡Allá Viene!), Ezequiel Reyes

Prêmio do Público
FABIANA
Fabiana
Brunna Laboissière


OUTROS PRÊMIOS

Prêmio de Melhor Filme da Mostra Novos Olhares
POR DETRÁS DAS CORTINAS
Derrière les Volets
Messaline Raverdy

Prêmio de Melhor Filme da Mostra Outros Olhares
NOSSA CASA
Watashitachi no ie
Yui Kiyohara

Prêmio Olhares Brasil | Longa (Melhor Longa-Metragem Brasileiro)
O CHALÉ É UMA ILHA BATIDA DE VENTO E CHUVA
O Chalé é Uma Ilha Batida de Vento e Chuva
Letícia Simões

Prêmio Olhares Brasil | Curta (Melhor Curta-Metragem Brasileiro)
MARÉ
Maré
Amaranta Cesar
*Menção Especial: ESTAMOS TODOS AQUI, Chico Santos e Rafael Mellim


PRÊMIOS PARCEIROS

Prêmio da Crítica/Abraccine
ANSIOSA TRADUÇÃO
Nervous Translation
Shireen Seno

Prêmio AVEC-PR (Melhor Curta-Metragem da Mostra Mirada Paranaense)
ACIMA DA LEI
Acima da Lei
Diego Florentino
*Menção Especial: LUI, Denise Kelm