Fora de Cena | Uma Voz nas Sombras

Esta semana o Fora de Cena traz para vocês uma prova de que, muitas vezes, são as histórias mais simples que mais nos emocionam e nos marcam. Este filme marcou tanto que fez com que Sidney Poitier ganhasse o Oscar de Melhor Ator em 1964, o primeiro negro a ganhar o prêmio, além do Urso de Prata de Berlim.

Uma Voz nas Sombras narra a história de Homer Smith, um homem solitário e sem emprego que a caminho do Oeste americano encontra uma fazenda no deserto administrada por freiras de origem germânica. As irmãs, com nada a oferecer a não ser pouca comida e um abrigo humilde, contratam os serviços de Homer, que aos poucos vai simpatizando cada vez mais com elas e sua causa.

O objetivo principal das freiras é ver construída sua capela, pois o povo daquela região tem que assistir a missa em um local improvisado. O homem escolhido, segundo elas, por Deus para realizar esse trabalho é Homer, que inicialmente não demonstra o menor interesse em fazê-lo de graça. Porém, algo muito mais importante que o dinheiro pesa na consciência de Homer. O orgulho. Mostrar para os demais, mas principalmente para si mesmo, que é capaz de construir algo de significativo na vida. O simbolismo da ação nesse caso tem muito mais significado do que a capela em si.

Homer não é católico e é, na verdade, também bastante genioso. Poder ver a forma como passa a se relacionar com as freiras, a ensinar inglês para elas e como passa a comprar comida para abastecer a fazenda sempre que consegue dinheiro, é uma bela e divertida lição de que pode haver cooperação entre diferentes crenças, afinal, o objetivo principal é o mesmo: fazer o bem. O filme é capaz de transmitir essa mensagem de forma singela e com uma trilha sonora que com certeza ficará na sua cabeça, além de fazer uma crítica aos poderosos que tanto têm, mas pouco dividem.

A sutileza desta história se encontra também em seu título original, Lilies of the Field (Lírios do Campo). Essas flores são mencionadas em textos bíblicos e a imagem que podemos construir delas é a de superação. Mesmo em um campo aberto, com cuidado apenas do tempo e da natureza, crescem e desenvolvem plenamente. O filme traz esse ensinamento para nós: quando o terreno parecer infértil ou a caminhada muito pesada, devemos lembrar que a força para crescer está em nós mesmos.