Jukebox | O primeiro álbum de Harry Styles

Como membro mais notável e intrigante de uma das maiores boy bands do mundo recente, construir seu álbum solo de estreia deve ter sido uma experiência assustadora e emocionante para Harry Styles. Principalmente devido à pressão enorme que tem sido gerada em torno do jovem de 23 anos para que ele se estabeleça como “o novo Bowie” ou “o novo Mick Jagger” – como se algum dia alguém pudesse conseguir fazer isso -, ou o novo qualquer coisa. Entretanto, o que é inegável é a influência que esses dois artistas, entre muitos outros, desempenhou sobre esse primeiro álbum de Harry.

Em seu álbum autointitulado, Styles abre, não com a música rock up-tempo conforme esperado, mas com “Meet Me in the Hallway” – uma suave e extensa faixa de guitarra que serpenteia suavemente até chegar à melódica “Sign of the Times“, que já foi objeto de análise de algumas colunas anteriores, conforme vocês podem conferir aqui. Após ter ouvido o álbum em sua totalidade, me parece um erro a escolha de “Sign of the Times” como o primeiro single, não só por causa da sua duração gigante de 5 minutos e 41 segundos, o que pode ser bastante problemático para as rádios ao redor do mundo, mas também porque essa canção, apesar de boa e épica, está longe do melhor do que Styles tem para oferecer.

Um dos pontos altos do álbum é sua produção. O toque acertado de Jeff Bhasker faz Harry mover-se rapidamente em cada canção de forma continuada, sem perder o ímpeto. Há uma ligeira influência hip hop na ótima e animada “Woman“, que funciona com Harry solo, mas se encaixaria muito bem com uma participação de Kanye West, por exemplo. Outro fator que chama atenção é o fato de Styles ser um verdadeiro filho da era da internet, por isso faz sentido esse álbum não se ater a um gênero em particular e ser um amontoado de referências a tudo, desde folk, funk, pop e até mesmo ao punk rock. Dentre os destaques do álbum temos “Carolina“, que é uma canção bem divertida que nos remete ao verão e que afrouxa o humor no álbum após duas faixas bastante solenes, como “Sign of the Times” e “Meet Me In The Hallway“.

Em “Ever Since New York” e “Sweet Creature“, o cantor, que já havia sido confrontado com algumas acusações bastante pequenas de “se inspirar demais” em algumas faixas de Bowie em seus singles iniciais, demonstra essa influência ainda com mais força. Na verdade, o caso aqui parece ser de alguém que não tem medo de gritar sobre a música que o inspira, certamente utilizando suas influências como decidir, apesar de a linha entre a inspiração e a cópia em algumas faixas se tornar bem tênue.

Two Ghosts“, faixa que supostamente pode ser sobre o relacionamento do cantor com Taylor Swift, certamente terá muitas fãs lutando para descobrir todas e quaisquer referências à sua vida amorosa, seja nas citações aos “Same red lips” e “Same blue eyes“, ou na suspeita de que a canção converse com a faixa “Style” do último álbum da cantora. Esta é a referência mais explícita à sua vida pessoal no álbum, algo que é enfrentado de forma sutil e surpreendentemente madura.

Sobre “Only Angel“, finalmente temos o som que muitos fãs e críticos esperavam do primeiro single do álbum. Depois de sua introdução bem legal, há um fantástico momento com o som eloquente de guitarra e o grito gutural de Styles sobre a letra de uma garota que, à primeira vista, parece um anjo, mas após conhecê-la percebe-se que ela é um “diabo entre os lençóis”. A letra da canção é um pouco decepcionante, principalmente por conta de Styles ter evoluído em suas opiniões sobre as mulheres e suas fãs nas entrevistas recentes de divulgação do álbum. Desta forma, considero um pouco vergonhoso ele não ter tentado romper com alguns dos mais desgastados arquétipos de gênero que dominam a música rock que ele claramente ama.

É inegável que neste álbum Harry Styles abriu-se, da melhor forma que pôde, para seu público e reuniu uma equipe sólida em torno da criação deste trabalho imersivo, bem produzido e de músicas que não estão tentando provar nada em particular para ninguém, apenas demonstrar os sentimentos e pensamentos daquele que as criou, o que sem dúvidas foi um acerto para ele. Por fim, sempre vale salientar que quando você tem muitas pessoas te observando e falando sobre você, tentando dissecar sua vida a todo momento, conseguir montar um trabalho com esse nível de coesão e até mesmo certa profundidade é uma façanha para um álbum de estreia.

Avaliação do Álbum

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