Crítica | It: A Coisa

Há quatro décadas Stephen King escreve num ritmo que ainda evoca emoção, urgência e humanidade como nenhum autor vivo. No entanto, não é com a mesma frequência que boas adaptações da obra literária do autor chegam aos cinemas e a explicação para isso é que são poucos os cineastas que entendem a essência da sua escrita. It: A coisa chega aos cinemas sob o comando do ainda novato Andrés Muschietti (Mama), comprovando que a partir do momento em que se opta por dar voz aos personagens multifacetados do autor ao invés de apenas tentar reproduzir em tela os horrores que ele escreve, as chances de dar à luz a uma obra audiovisual divisora de águas crescem exponencialmente.

It narra a história de um verão assombrado onde sete crianças, que se autointitulam Clube dos Perdedores, lutam contra uma força maligna ancestral da sua cidade. Entre os amigos estão Bill (Jaeden Lieberher), Ben (Jeremy Ray Taylor), Richie (Finn Wolfhard), Eddie (Jack Dylan Grazer), Mike (Chosen Jacobs), Stan (Wyatt Oleff) e Beverly (Sophia Lillis), a única menina do grupo. Todos eles, vindo de lares problemáticos afetados tanto por abusos como por superproteção e luto, começam a encontrar forças quando se juntam para enfrentar seus maiores medos personificados na presença aterradora do palhaço dançarino Pennywise (Bill Skarsgård).

O encanto incomodo que o filme desperta já nos minutos iniciais se dá justo porque Muschietti compreende que nenhum dos protagonistas é menor do que os clássicos jump scares. Logo, é desta forma que o desfecho brutal do primeiro encontro entre Pennywise e o pequeno Georgie causa arrepios e emociona. O mais surpreendente aqui é que a partir do momento em que estabelece a marca visual das sequências de horror que percorrerão toda a projeção, o diretor automaticamente escapa das armadilhas do gênero. Sem apelar para a trilha estridente e sem ter medo de mostrar os terrores liberados pelo palhaço, a violência gráfica vai nocauteando o espectador a cada nova surpresa.

As surpresas, inclusive, se dão com toda a pompa graças ao fabuloso desenho de produção de Claude Paré, que confere um ar de fantasia ao estilizar as principais locações do longa. Desde o covil de Pennywise aos interiores claustrofóbicos das casas das crianças, sendo meus favoritos o lar de Beverly e o de Eddie. Os ambientes do filme são tão táteis que fica fácil imergir naquele universo. Esse cuidado também me fez relevar a natureza digital e dispensável de algumas das criaturas em que o palhaço se transforma. Um problema que no passado pôs em cheque o subestimado Mama de Muschietti.

Apesar de todos os acertos mencionados, nenhum consegue superar o maior de todos eles: o casting perfeito. Revelando nomes que deverão ser notados no futuro, como o do jovem Jack Dylan Grazer – que dá vida ao paranoico e adorável Eddie – e o da encantadora Sophia Lillis – que transforma Beverly numa personagem tão apaixonante quanto a Eleven de Stranger Things -, o elenco infantil consegue ser um verdadeiro achado. E sim, It é um filme das suas crianças. Não é por coincidência que mal vemos adultos no longa e que todos eles carreguem uma áurea de desinteresse apático que se torna comum quando perdemos a ingenuidade da infância e nos deixamos ser consumidos pelo ódio e pelo medo.

Medo esse representado pelo ator Bill Skarsgård e seu Pennywise numa performance tão visceral que até mesmo a figura cult do palhaço de Tim Curry já pode virar animador de festa de criança. Skarsgård inflexiona a voz num tom de arlequim tresloucado que arrepia desde o primeiro instante. Depois disso, o horror encarnado por ele segue numa crescente tão absurda e grotesca que fica impossível não se assombrar com a violência do monstro na segunda metade do longa.

Entrando para o hall de melhores adaptações de Stephen King, It: A Coisa chega bem mais perto de ser a “obra-prima do medo” do que a primeira versão anunciava. Um filme de horror com coração e com a alma dos seus protagonistas, ou seja, apaixonante.