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Barry | Uma arma na mão e um roteiro na cabeça compõem a trama da nova série da HBO

Não é de hoje que séries de ação conquistam o público. E o mesmo acontece com as clássicas comédias que desde sempre acompanham os diversos conflitos do cotidiano de seus personagens. Histórias repletas de violência e outras cheias de reviravoltas amorosas e cômicas sempre atraem seus respectivos espectadores. Mas Barry, nova aposta das noites de domingo do HBO, pretende brincar com estes dois universos distintos simultaneamente.

A trama acompanha Barry, um assassino de aluguel que está passando por uma crise de depressão e enxergando-se com pouca perspectiva sobre seu futuro. No entanto, isso muda durante a execução (trocadilho não intencional) de um de seus serviços para um grande mafioso de Los Angeles. O caso seria simples: mais uma vítima, dinheiro na conta e fim de papo. Mas é durante a inspeção inicial de seu alvo que o assassino acaba em uma aula de teatro e encontra um novo propósito para sua vida: ser ator.

Acreditando em seu potencial e determinado a adaptar sua vida para conquistar seu novo sonho, Barry decide apostar todas as suas fichas em si mesmo, dividindo-se entre seus assassinatos e sua nova vocação. Para isso, o protagonista conta com a ajuda de Fuches, seu tutor, que lhe indica aos serviços de assassinatos e divide os lucros com seu pupilo.

A série, de certa forma, é como um shampoo dois em um, com seus momentos de ação e comédia autodepreciativa sendo intermediados por um protagonista frio, desesperado e sonhador. As cenas de violência da trama são certeiramente características do gênero, enquanto as cenas do grupo de atores se separam radicalmente do contexto de ação, ganhando a forma de uma típica sitcom americana qualquer. É como se fossem dois programas em um só, ligados apenas pelo drama e pelos conflitos de seu personagem principal.

Os dois primeiros episódios da trama conseguem dar ao público uma percepção de como será seu elenco, mas sem criar muitas expectativas. Além de Barry, interpretado por Bill Hader, Henry Winkler e Paula Newsome, respectivamente na pele do professor Gene Cousineau e da detetive Moss, são dois ótimos destaques da trama e prometem garantir boa parte da veia cômica do show através de seus arcos.

Em contrapartida, a Sally de Sarah Goldberg é uma forçação sem graça ao possível casal com o protagonista. A personagem não entrega nada de excepcional à trama, mesmo garantindo grande destaque de seus enredos durante os episódios. A intenção da personagem na série é de ser uma tutora de Barry no âmbito da atuação. Mas acaba que o aspirante a ator prende a atenção do público despretensiosamente com sua completa falta de familiaridade com o contexto teatral unido ao dilema de ter muito sangue nas mãos por conta de seu outro trabalho.

Já a divertida D’Arcy Carden, mais conhecida por sua personagem Janet/Bad Janet em The Good Place, mantém a receita de bolo de sua personagem não-humana e não-robô com seu jeitinho levemente desengonçado e prestativo – pronta para tirar dúvidas e se mostrar à disposição do grupo a qualquer momento.

É uma personagem interessante, mas apesar da atriz demonstrar sua dedicação em seu novo projeto, em algumas de suas cenas é praticamente inevitável não esperar que ela comece a entregar cactos aleatoriamente para os colegas. Janet é uma personagem muito característica e desvinculá-la de seus outros trabalhos será um grande desafio para Carden – a começar por Barry.

Por fim, no geral, Barry é uma série divertida e sem muitas pretensões. Ela diverte o público com seus personagens caricatos e relativamente clichês, mas sem o peso de tentar ser algo extraordinário. Os suspenses de pequenos pontos de virada no final dos episódios prendem a atenção do público de forma sutil, mas intrigante, e o enredo do protagonista e sua carreira de ator certamente prometem arrancar boas risadas da audiência. Vale a pena conferir.