Animaction | O Gigante de Ferro

Se você pensa que a interação menino/robô é uma novidade trazida pelo fofo Will Robinson de Perdidos no Espaço da Netflix, você está bem enganado. Antes de tudo, vamos lembrar que essa série é um remake de outra da década de 1960, na qual também havia um jovem Will e seu robô. Além disso, meninos solitários, com pouca supervisão de um adulto e que acabam fazendo amizades com máquinas (quase sempre perigosas para os demais), é um prato cheio para muitos filmes (vide O Exterminador do Futuro 2). Nesta edição, vamos tratar exatamente desta temática e trazer um clássico emocionante da animação: O Gigante de Ferro.

O personagem principal se chama Hogarth e ele vive na pequena cidade de Rockwell com sua mãe. O menino passa a maior parte de seu tempo livre sozinho, já que a mãe trabalha fora todo o dia e muitas vezes também à noite. A imaginação já fértil do garoto é alimentada pelos quadrinhos de super-heróis e de ficção científica que tanto ama ler. Um dia, ao sair em uma pequena aventura à noite sem que sua mãe soubesse, é claro, Hogarth se depara com um enorme robô (interpretado por um não famoso Vin Diesel), vindo provavelmente do espaço, comendo todo o metal que via pela frente.

O interessante da história é que não há uma explicação exata de como o robô foi parar ali ou qual sua origem. Fato é que ele apareceu e agora precisa de ajuda para não ser completamente exterminado pelo exército. Aí que entra outro ponto muito bem pensando neste enredo: apesar do filme ser de 1999, a história se passa em 1957, bem na época da corrida espacial e que os Estados Unidos viviam bitolados com a ideia de vencer os russos e com assuntos de espionagem – não que isso tenha mudado muito nos dias de hoje, claro.

É importante entender a mentalidade das pessoas da década de 1950 ou pelo menos ter ideia do que estava acontecendo naquela época no país, pois todo o argumento do filme vem desses detalhes. Com o robô comendo o metal dos carros, de tratores, de postes e de tudo o que via pela frente, os moradores acionaram o governo, que, por sua vez, envia o agente Kent Mansley para investigar o caso. Enquanto ele investiga, Hogarth fica amigo do robô e, com a ajuda de Dean, dono de um ferro velho, o esconde dos demais habitantes da cidade.

A relação entre o menino e o robô é muito importante para a história. Como a máquina não se lembra quem é ou de onde veio, e também não tem muita noção do que fazer ou como agir, Hogarth vira seu professor e sua referência de comportamento e o ensina, dentre outras coisas, a mensagem mais importante que a animação quer transmitir: ninguém determina o que você é, todos podem escolher o que querem ser. O menino e o robô têm conversas muito profundas sobre vida e morte e sobre o bem e o mal, como em uma sequência em que Hogarth explica para o robô que a alma nunca morre e que ele, mesmo sendo uma máquina, possui sentimentos e é bom, logo tem alma também. Esses pequenos diálogos não possuem complexidade, pelo contrário, são sutis e simples, mas são os momentos do filme capazes de nos emocionar.

Obviamente a amizade dos dois é comprometida por Kent, que vê no robô uma ameaça para o seu país e quer destruí-lo de qualquer maneira. Mesmo com a justificativa de estar cumprindo seu dever, Kent só pensa em si mesmo e nos benefícios que receberá se destruir essa “terrível arma”. Por conta disso, ignora Hogarth e Dean quando esses tentam explicar que o robô só se defende e que jamais iria atacar as pessoas arbitrariamente. Infelizmente a situação sai do controle e a cidade se vê em perigo, sendo salva por um super-herói. E você pode ter certeza que esse herói não era humano.

O Gigante de Ferro fez um sacrifício que muitos homens não fariam – Kent certamente não -, provando para todos que as aparências enganam e que ele era muito mais que uma máquina. Esse com certeza é um filme que nos emociona e nos faz lembrar de lições importantes, como não julgar as pessoas (ou os robôs alienígenas) por sua aparência e não deixar o egoísmo nos cegar. No final das contas, a construção da pessoa que somos e que apresentamos para mundo só depende de nós mesmos, e ter um filme “infantil” e de animação tratando tão bem desse assunto já é motivo o suficiente para incluir O Gigante de Ferro na estante dos clássicos favoritos de todos os tempos.