Punho de Ferro | Os seis primeiros episódios da série (sem spoiler)

Depois de conhecermos Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage, chegou a hora de sermos apresentados a Daniel Rand, o Punho de Ferro, último dos Defensores desse universo heroico construído pela Marvel/Netflix.

Desta vez temos um herói bastante diferente, se comparado aos outros da Marvel/Netflix. Ao começar a assistir este novo seriado, nota-se a diferença entre como Luke, Jessica e Matt ganharam seus poderes. Sim, eles não escolheram ser humanos super-poderosos, com sentidos aguçados ou pele impenetrável, eles foram circunstâncias do acaso. Já Daniel Rand, ou Danny, como é mais conhecido, escolheu ser o que é hoje. Optou por treinar e atingir a um nível supremo com suas lutas marciais e artes místicas que muitos não conseguiram.

Com o passar dos episódios, nota-se a vasta diferença entre as três séries anteriores quando as comparamos com Punho de Ferro. Porém, apesar de todas essas peculiaridades, conseguimos inserir todas elas no mesmo universo, graças ao roteiro bem amarrado e à delimitação do espaço e momento dos personagens centrais de cada uma delas.

O universo místico introduzido na série traz um ar de frescor e inovação a todo este universo que fomos acostumados a ver como sendo permeado por coisas mais realistas. Agora é hora de botar a imaginação para voar, assim como fizemos em Doutor Estranho, que trouxe uma forma nova de fazer filmes de herói da Marvel/Disney, apesar de no fim seguir uma fórmula igual a de outros filmes. Punho de Ferro tem também o papel de apresentar algo novo ainda que em sua trama tenha alguns elementos já vistos nas séries anteriores. Isso pode ser comprovado no fato de, mesmo tendo um tom mais leve, ainda reconhecemos a mesma carga dramática que carrega das séries antecessoras.

Assim como nas suas séries irmãs, Marvel – Punho de Ferro caracteriza bem o lugar em que é ambientado. Os altos prédios, o trânsito da cidade, as pessoas com roupas de negócios, os pequenos parques, todos os elementos nos remetem à uma típica cidade de Nova York que serve de cenário para toda a trama do herói, assim como Chinatown, onde fica localizado o dojo em que uma das personagens com maior destaque na trama, Colleen Wing, treina jovens lutadores.

Como em Marvel – Jessica Jones, temos o drama dos personagens como o grande foco desta nova série. A luta pessoal com aquilo que ele representa e vai representar futuramente é o que move a série, pelo menos nesses seis primeiros episódios. Jessica, na sua vez, lutou contra um vilão e seus demônios interiores pelo que aquele homem representou em sua vida, já Danny Rand segue a mesma linha de que tudo o que o move é referente àquilo que treinou durante esses últimos 15 anos.

É importante salientar que a atuação de Finn Jones como o protagonista Danny Rand a.k.a. Punho de Ferro está simplesmente sensacional. Quem acompanha Game of Thrones poderia saber e esperar que ele fizesse um bom trabalho nesta nova empreitada de sua carreira, mas honestamente você não vai saber até acompanhá-lo em Marvel – Punho de Ferro. O ator estabelece muito graças a sua atuação, principalmente no início da trama: quem é esse personagem, de onde ele veio e porque ele está de volta do seu exílio, sempre exalando “good vibes“, com excelentes cenas de lutas muito bem coreografadas e, principalmente, com propósito na história. Tudo é tão bem feito e natural que nos pegamos pensando: “Esse cara nasceu para ser o Punho de Ferro”. Além de tudo, Jones é super carismático, então você consegue se relacionar e ter empatia com o personagem facilmente.

É claro que a série não seria tão boa se o elenco não fosse tão bom. Todos os demais personagens são muito bem apresentados e construídos, mas o destaque fica com Jessica Henwick (Colleen Wing), Jessica Stroup (Joy Meachum), Tom Pelphrey (Ward Meachum), David Wenham (Harold Meachum) e, por fim, mas não menos importante, a nossa enfermeira preferida vivida Rosario Dawson (Claire Temple). Além da ótima atuação do elenco, é também válido observar como cada um deles interage com Danny de diferentes formas, do amigo mais próximo ao maior inimigo. Você pode odiar algum personagem – e isso deve acontecer, não se iluda – mas vai amar odiá-lo. Provavelmente esse seja o elenco mais carismático das séries da parceria Marvel/Netflix, o que é ótimo, pois mostra uma evolução por parte dos produtores.

Algo peculiar sobre Marvel – Punho de Ferro é que não temos um vilão definido logo no início da trama, conforme ocorreu em suas “séries irmãs” e ocorre em grande parte das séries do gênero. O vilão sempre está presente de alguma forma, dando a sensação de perigo necessária para que os personagens nunca se sintam muito confortáveis ou a salvo. Mas é sempre difícil decifrar quem ele é e qual a motivação levará Danny Rand a futuramente assumir o manto de Punho de Ferro. Em relação à ação da série, é nítido ver que apesar do drama e o desenvolvimento dos personagens ser o principal foco nesta primeira metade da temporada, como citado anteriormente, a ação acontece de forma magnífica. Como é baseado num universo místico, podemos ver o exagero de pulos muito altos, mortais ou quaisquer outras movimentações de um bom filme de kung fu, mas sempre de forma a acrescentar na história, e não gratuita.

Outro ponto que nos fez ficar positivamente surpresos foi que a maior novidade de todos os elementos que habitam nesta série, o “punho brilhante” do Punho de Ferro, não foi utilizado em nenhum momento nestes seis primeiros episódios para o personagem se safar de situações absurdas. Assim como as lutas que aparecem em momentos cruciais, ele também não se apoia a exclusivamente só usar seu punho superpoderoso a todo momento, isso é feito pontualmente em momentos de máxima necessidade quando toda a sua habilidade marcial já não é o suficiente para que ele ultrapasse um obstáculo. Isso valoriza o personagem, pois o torna muito mais do que apenas um humano com um punho superpoderoso. Ao focar nos valores morais de Danny a série cresce e mostra que não necessariamente precisa ser apenas sobre isso.

Por fim, o incrível da série do alter ego de Danny Rand, na opinião deste que vos escreve, é que ela funciona totalmente sozinha. O público não precisa acompanhar as demais séries de herói da Netflix para que possa entender tudo o que acontece na nova história, o que é ótimo e animador. Isso nos remete também às especulações de que a série possa ter ou não ligação com o Universo Cinematográfico da Marvel juntamente com os demais ditos heróis urbanos, todos com suas motivações próprias, personagens bem desenvolvidos e com uma trama que consegue andar bem com as próprias pernas. Honestamente torço para que sim, pois Marvel – Punho de Ferro é de longe uma das melhores produções feitas baseadas em heróis do serviço de streaming e que pode conseguir alcançar o público que quer assistir uma série urbana, adulta, mas que flerta e se desenvolve no ramo do misticismo.

Imagens: Divulgação/Netflix