Falando Sobre… | 13 Reasons Why e suas questões

Por onde a gente começa a falar sobre 13 Reasons Why, a nova série original da Netflix?

Nos 13 episódios da série, conhecemos a história da vida de Hannah Baker – ou, mais especificamente, a história de como sua vida acabou. Semanas após ela ter cometido suicídio, Clay Jensen recebe em casa um pacote com um mapa e sete fitas cassetes contendo gravações da própria Hannah, onde ela narra a série de eventos que a levaram a acreditar que sua única opção seria pôr um fim à própria vida.

Eu poderia falar sobre a adaptação e as nuances de roteiro, ou poderia falar sobre as qualidades da produção que vão desde a fotografia até a trilha sonora. Eu poderia falar sobre cada personagem em particular. Em vez disso, resolvi falar sobre por que 13 Reasons Why é provavelmente uma das produções mais importantes que já assisti em muitos anos.

13 Reasons Why é, como a própria premissa já adianta, uma série sobre suicídio. É no mínimo curioso que em pleno 2017 este tema ainda seja tabu, mas é verdade – falar abertamente sobre depressão, suicídio e transtornos mentais de maneira geral ainda é algo difícil, não apenas em casa como em ambiente escolar. As pessoas não estão informadas o suficiente para falar sobre isso, e as pessoas não estão preparadas para tomar parte nesse tipo de discussão. Logo, ter uma obra de ficção que se proponha a falar sobre esse assunto é de extrema relevância.

Cerca de 800 mil pessoas se matam todos os anos. O suicídio é o segundo maior causador de mortes entre jovens de 15 a 29 anos (não curiosamente, a faixa etária de Hannah Baker). Oitocentas mil pessoas que, muitas vezes, não sentem que podem procurar ajuda. Jovens que veem seus problemas sendo minimizados, às vezes negligenciados pela família e amigos. Uma série como 13RW é um alerta para quem cerca essas pessoas e um alento para quem sofre desse tipo de problema – a identificação com um personagem fictício torna mais fácil procurar ajuda. É informação.

Além disso, a série ainda traz um dos relatos mais intensos e realistas de abuso e bullying que já vi em obras de ficção. Através dos seus anos conturbados do ensino médio, Hannah é vítima constante de boatos – iniciados por rapazes que a veem como um objeto e aumentados por garotas sem um mínimo de empatia – que crescem para situações cada vez mais exacerbadas de slutshaming (termo em inglês que significa ofender verbalmente ou por atitudes uma mulher com base nas suas presunções sobre a vida sexual dela) até se transformarem em abuso físico. Hannah é maltratada de todas as formas que é possível ser maltratada – formas que, muitas vezes, são guardadas exclusivamente às mulheres.

13 Reasons Why é uma série sobre suicídio, mas também é uma história sobre como o machismo no dia a dia destrói vidas. Vemos não apenas como a objetificação, o slutshaming e a violência verbal e física podem minar completamente o psicológico de uma pessoa através de Hannah, como também percebemos, através do olhar de Clay, o quanto muitos de nós somos negligentes com relação a essas atitudes. Quantas vezes ouvimos ou reproduzimos boatos sórdidos a respeito da vida amorosa ou sexual de uma mulher e não nos posicionamos contra isso? Quantas vezes presenciamos situações de agressão verbal ou física e fingimos não ver? Quantos de nós escolhemos ignorar as pequenas atitudes abusivas e sexistas que nos cercam no trabalho, na escola, e muitas vezes dentro de casa, porque simplesmente não é do nosso interesse agir?

Quantos de nós nos tornamos, sem querer, um motivo na lista de razões pelas quais alguém pode decidir acabar com a própria vida?

Ao fim de seus 13 episódios, 13 Reasons Why entrega muito mais do que uma história triste. Ela entrega um aprendizado: tome cuidado com o que você diz. Tome atitudes sobre as coisas erradas que você vê. Procure ajuda. É por essas e outras que, das produções recentes da Netflix, essa é provavelmente a mais importante. Nunca se sabe quem pode ser a Hannah no seu círculo de amigos.

Por Larissa Siriani