Crítica | Entre Irmãs

Entre Irmãs é uma poesia em formato de filme, desde a paixão pelo diretor Breno Silveira em contar a história baseada no livro A Costureira e o Cangaceiro, passando pela entrega dos atores em encarnar seus personagens com tanta delicadeza, até nos mostrar a força do nordestino brasileiro. O longa é ambientado no interior do nordeste e narra ao espectador um conto sobre destino e bravura de duas irmãs tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo.

Logo de início já somos apresentados à difícil vida Emília (Marjorie Estiano) e Luzia (Nanda Costa), que estão brilhantes no papel. A abertura do longa nos mostra as irmãs ainda pequenas, aprontando coisas de crianças, o que leva Luzia a ficar com o braço aleijado para sempre após cair bruscamente de uma árvore. A partir daí, a personagem desenvolve uma casca ao redor dela, na qual se mostra inquebrável e conformada com a vida no sertão acalorado do nordeste. Ela ainda zomba das rezas de sua irmã Emília, uma romântica incurável que quer achar o amor e ir morar no Recife.

Como a história é de época, essas premissas podem parecer bobas, mas não são retratadas de um jeito pedante. Conforme o filme acontece, vamos percebendo que os assuntos incluídos na narração são bem atuais: o debate feminino, a força das mulheres, o que elas devem ou não fazer e o ataque aos LGBTS. Todos esses temas estão presentes e, com um texto leve, o diretor choca o espectador ao fazê-lo perceber que o mundo está em retrocesso.

Mas a narração das duas irmãs continua, algumas vezes cansativa durante as 2h40 de filme. Já crescidas, ambas vão aprendendo as mazelas da vida e se aperfeiçoando na costura junto da tia, que as cria com muito amor. Até que um dia Emília começa a se apaixonar por seu príncipe encantado da capital, Degas (Romulo Estrela), enquanto que um bando de cangaceiros comandados pelo Capitão Carcará (Julio Machado) assola a cidadezinha de Taquaritinga do Norte. É de novo o destino das irmãs sendo cruel e sutil ao mesmo tempo. Elas jamais imaginariam que se separariam, mesmo brigando tanto por conta de suas diferenças.

Luzia vai embora com os cangaceiros após afrontar Carcará e Emília fica sozinha no lugar que ela menos queria depois que a tia das duas morre de desgosto pela perda de uma das sobrinhas. Mas logo Degas pede sua prometida em casamento tão rápido e Emília, sem suspeitar de nada, acha que está partindo para a vida que sempre pediu aos santos que acreditava. A partir deste momento o longa volta a ser interessante – de um jeito menos maçante – e conseguimos entender o quanto a vida pode ser cruel. Luzia acaba se apaixonando pelo seu sequestrador, algo que hoje em dia é completamente inaceitável e bizarro, mas que no filme faz sentido, já que Carcará não é o vilão da história e sim apenas uma vítima do ódio, como já vimos em O Auto da Compadecida.

Os laços entre as duas irmãs vai acabando cada vez mais, enquanto a vida de Emília no nordeste que ela sempre sonhou se desenrola para pior. Acontece que a personagem sempre almejou liberdade e se encontra cada vez mais presa na sociedade pernambucana, tão cruel quanto se pode ser com uma mulher na década de 1930. O casamento de fachada e a vontade de ser alguém e não poder, reprimem tanto Emília que ela acaba escondendo que tem uma irmã que sempre aparece nos jornais como procurada pelo governo Vargas. E é aqui que percebe-se o quão realmente a trama é profunda, por mais que em alguns pontos seja arrastada. Emília, após descobrir que, na verdade, Degas é gay e apaixonado por Felipe, conhecido de infância da nordestina, se afasta cada vez mais do marido até se aproximar de Lindalva (Letícia Colin), outra dama da capital que afirma ter a mente sempre aberta.

Ao passo que as duas viram amigas e depois mais do que isso, Luzia, que está cada vez mais envolvida com a vida de cangaço e abraça com unhas e dentes seu destino sofrido novamente, engravida de seu amado. Dando um show de coragem, ela decide ter seu filho no meio dessa vida tão densa e pesada. Enquanto as histórias do cangaço se desenrolam em combate à política progressista que se alastra no país, Carcará leva um tiro na perna e Luzia o leva até um médico que, mais para frente, a ajudará no reencontro com sua irmã, que por sua vez está finalmente descobrindo o sexo e o amor com Lindalva e entendendo o que seu marido sente.

Mas nem tudo são flores. Assim como na vida real, o destino é cruel com Degas e Carcará e os laços das irmãs estão prestes a se fortalecer de novo quando seus cônjuges se deparam com um final nada feliz e Luzia decide que seu filho tem que ser criado por Emília. Com a ajuda dos cangaceiros, que passam a tê-la como capitã, ela entrega o filho à Emília em uma cena tão emocionante quanto o filme todo, cheia de simplicidade e entrega das atrizes.

O longa acaba como começou: simples e grandioso, com Marjorie Estiano narrando uma carta que sua personagem escreve ao pai de Degas, o responsável por grandes desgraças no decorrer da trama. Isso traz uma sensação de querer ver mais daqueles personagens, que são atemporais antes mesmo de terem ganhado vida no filme, pois suas histórias são reais. Entre Irmãs fala de destino e, acima de tudo, sobre como a vida não é e nunca será previsível, além de ser mais uma boa produção cinematográfica nacional neste ano de 2017, que já nos entregou obras excelentes como Bingo – O Rei das Manhãs e Como Nossos Pais.

Diretor e elenco falam sobre “Entre Irmãs” em São Paulo