Crítica | Altas Expectativas

Pense na seguinte premissa para uma comédia romântica: duas pessoas completamente diferentes se conhecem e se tornam amigas. Ele, de bom coração, mas com baixa autoestima, acredita não ser merecedor do amor da moça. Ela, totalmente distraída e envolvida em seus próprios problemas pessoais, não percebe o interesse do rapaz e o mantém na conhecida friendzone. Vários filmes se encaixam nesta premissa e não é diferente com Altas Expectativas. O diferencial deste longa é que os personagens principais desta história são uma jovem melancólica até demais e um rapaz que é anão.

Dirigido por Pedro Antonio e Álvaro Campos, o filme é livremente baseado na história da vida do ator e comediante Gigante Leo, que protagoniza a trama no papel do dedicado treinador de cavalos Décio. Falar sobre deficiência tendo como base uma história real também não nenhuma novidade para a telona, mas bom mesmo é quando isso é feito com sensibilidade e bom humor, duas características que Altas Expectativas possui de sobra. A trama de ficção se mistura com sequências em que Décio é deixado de lado, e é o comediante Leo que entra em cena para abordar o preconceito das pessoas e as piadas de mau gosto que ouviu a vida inteira e soube, com muito jogo de cintura, transformar em suas próprias, sem nunca deixar de transparecer em seu olhar o quanto ainda é difícil conviver com a intolerância daqueles que não aprenderam a respeitar e conviver com as diferenças.

É interessante que quando se trata do romance, o longa usa duas estratégias para também abordar o tema da deficiência de forma bem verdadeira. Isso acontece através da protagonista feminina Lena, interpretada por Camila Márdila. Ela acaba de reabrir o café do jóquei, mas o negócio não vai tão bem, além disso, encontra dificuldades para pagar o tratamento de seu irmão cadeirante. Como se não bastasse, a personagem tem uma característica peculiar: ela aparentemente não consegue sorrir. Talvez não possamos considerar esse detalhe como uma deficiência propriamente dita, mas com certeza é algo que a difere da multidão e faz com que o olhar das pessoas em relação à ela seja diferenciado.

Outra questão importante para qual o filme chama atenção é a da ajuda. Normalmente quando vemos uma pessoa com alguma deficiência na rua tentamos ajudá-la, sem nem ao menos pensar se ela queria ser ajudada em primeiro lugar. Na história, enquanto Décio tem sua independência e consegue fazer tudo sozinho, Lena é completamente inferiorizada por seu namorado Flávio (Milhem Cortaz), que continuamente toma decisões por ela – principalmente por ter uma boa condição financeira – a colocando no papel de pobre coitada incapacitada, como se ela fosse, de alguma forma, também deficiente.

Em certo momento, Décio decide seguir a carreira de humorista, pois percebe que consegue arrancar uns sorrisinhos de canto de boca de Lena. Um sorriso, para ele, já é meio caminho andado para a conquista. Ao tratar desse tema, o roteiro tenta apresentar a diferença de quando é “permitido” fazer piadas com as limitações e ou deficiências de uma pessoa. Aparentemente é tranquilo para o portador da deficiência brincar com sua situação e também para alguns amigos íntimos. A situação muda completamente quando é um estranho fazendo a piada.

A verdade é que esse é um tema muito complexo e que realmente vai variar de pessoa para pessoa, levando em consideração o quão adaptada ela é com sua realidade. No entanto, é possível afirmar que piadas de mau gosto, fora de contexto, ditas simplesmente com o intuito de magoar e inferiorizar a pessoa não devem ser feitas. É muito absurdo que ainda seja necessário bater nessa tecla, pois é óbvio que ninguém gosta de ter seus defeitos exaltados e não é diferente com as pessoas com deficiência.

O posicionamento das câmeras também foi muito importante para a composição do filme. Sempre mostravam Décio de sua própria perspectiva, mas quando era olhado de cima por alguém que não o conhecia ou que não estava acostumado com ele, a câmera também acompanhava esse olhar, deixando bem clara a diferença entre as duas perspectivas e ressaltando o quão desconfortável Décio se sentia.

Todos esses pontos expostos pelo filme são muito reais para as pessoas com deficiência. Acostumados a ouvir brincadeiras” e serem olhados duas vezes nas ruas, os deficientes enfrentam uma barreira a mais em todos os problemas da vida. Apesar disso, Altas Expectativas termina com uma mensagem positiva sobre aceitação e identidade, além de algumas imagens emocionantes do casamento de Leo. Merece, com certeza, todos os nossos aplausos e nossas risadas.