Crítica | A Noite do Jogo

Até que ponto vai uma competição entre irmãos?

É com base nesta premissa que A Noite do Jogo promete garantir as risadas de seu público, sem deixar de lado a tensão que move a ação. O longa dirigido por Jonathan Goldstein e John Francis Daley ocupa a tela com grande facilidade, ganhando seu público na mesma proporção já durante as cenas iniciais.

Na trama, a tradicional reunião entre amigos ganha proporções inesperadas quando Brooks, o irmão mais velho de Max, chega à cidade para uma visita e decide mudar os planos do grupo, propondo um jogo diferente do que eles estavam acostumados. A proposta envolveria algumas charadas em torno de um assassinato fictício em que o casal ganhador levaria um carro para casa. Isso porque Brooks, além de ser mais velho, era muito mais bem-sucedido e rico do que Max, o que sempre gerou uma forte competição entre os dois. Agora o jogo torna-se uma questão de honra e vingança e a competição fica bem mais acirrada entre os irmãos.

No entanto, as coisas não saem como planejado e o grupo de amigos acaba se envolvendo em um sequestro real, que pode colocar a vida de todos em risco. E é em meio a esse turbilhão que somos apresentados ao melhor personagem da história: o sinistro vizinho Gary, um policial cujo comportamento nunca foi próximo do normal, mas desde que sua esposa o deixou, tal comportamento só agravou, o que o distanciou de Max e Annie, que o evitam a todo custo. Isso porque Gary só quer voltar a frequentar as noites de jogos do grupo, mas sempre é despistado por eles.

O olhar que Jesse Plemons traz em Gary é tão vazio e psicótico que, mesmo com seu cachorrinho sempre em seu colo, não tem como não sentir o desconforto dos outros personagens quando o policial está em cena. É quase como se Gary fosse uma extensão de Robert Daly, personagem de Plemons no episódio “USS Callister” da quarta temporada de Black Mirror. O curioso é que ainda que seja medonho, em certos pontos da trama nós conseguimos, inclusive, entender o lado de Gary e lamentar por sua situação. É um personagem igualmente bizarro e hilário ao mesmo tempo.

Já o casal de protagonistas, Max e Annie, vivido respectivamente por Jason Bateman e Rachel McAdams, também nos conquista de cara, assim como o grupo de amigos que participam das tradicionais noites de jogos na casa do casal. Isso porque a trama não se deixa levar apenas pelo enredo principal, permitindo-se entrar em histórias paralelas, como o obstáculo que é gerado entre o casal Michelle e Kevin durante uma rodada de Verdade ou Consequência.

De fato, o longa de Goldstein e Daley não peca nas referências aos mais diversos tipos de jogos, tanto recentes, quanto clássicos. Seja nas cenas de transição, onde a cidade ganha a proporção de um jogo de tabuleiro, ou nas cenas de ação e perseguição, onde a perspectiva da câmera segue o modelo de videogames no estilo de Need For Speed, A Noite do Jogo faz jus ao título que carrega sem decepcionar.

Embora em alguns momentos a trama caminhe para rumos um tanto quanto surreais, é praticamente impossível não se identificar com os personagens. Além disso, apesar do forte teor cômico, A Noite do Jogo também aproveita seus momentos de ação e suspense com eficiência e sem perder sua essência de comédia. Na verdade, a quebra de tensão nos momentos mais complicados da narrativa lhe cai como uma luva, algo que diversas produções ainda têm bastante dificuldade de trazer para a tela.

Em conclusão, o filme caminha através de um roteiro sólido e com grandes reviravoltas que, com certeza, são capazes de surpreender e envolver seu público, sempre sem deixar o humor de lado. O elenco se entrega com facilidade e as inúmeras referências e nostalgias envolvendo a temática de jogos também promete ganhar os espectadores de imediato.

Estamos certamente diante de uma das melhores comédias do ano, e a julgar pela recepção da crítica e do público, não vai demorar muito para A Noite do Jogo voltar às telonas com uma sequência ainda mais insana e divertida. E considerando o desempenho do primeiro filme, essas expectativas só tendem a crescer. Vale a pena conferir.