Crítica | Doidas e Santas

Você, por acaso, sabe qual foi a última vez em que deu uma boa gargalhada? É ao estar diante desta pergunta durante uma entrevista que a escritora e terapeuta de casais Beatriz Lira (Maria Paula) começa a repensar em diversos aspectos de sua vida, dentre eles seu próprio casamento, que se tornou uma grande rotina, e sua complicada relação com Marina (Luana Maia), sua filha.

Após a entrevista, Beatriz reflete sobre as diversas circunstâncias de sua vida, tais como seu novo livro, sua relação com Marina e, principalmente, seu casamento. Ela estava acostumada a dar conselhos amorosos para casais que estavam enfrentando crises no relacionamento, mas, quando menos percebeu, ela mesma vivenciava uma crise. É quando a protagonista decide se separar de Orlando (Marcelo Farias), largar seu trabalho no consultório e se dedicar somente ao que realmente a deixa feliz.

Apesar de ser uma adaptação do livro de Martha Medeiros – que também já ganhou uma versão para o teatro estrelada pela atriz Cissa Guimarães –, o filme se distancia do universo de suas adaptações anteriores. A narrativa do longa de Paulo Thiago tem uma característica interessante, que é induzir o espectador a tentar solucionar os dilemas dos personagens e, logo em seguida, quebrar as possíveis expectativas que o público poderia criar diante delas, gerando resoluções algumas vezes inesperadas.

A construção dos personagens do filme é rasa, mas bem trabalhada, embora alguns deixem a desejar, como é o caso de Luana Maia que, na época das filmagens, tinha 14 anos. A personagem é a mais sem graça da trama, com trejeitos forçados e usos excessivos de hashtags. Já Orlando (Marcelo Farias), apesar de ausente, se mostra como uma peça-chave para a família em diversos pontos de virada da história. Berenice (Georgiana Góes) é um dos melhores elementos do filme por ela ser o exato oposto da irmã. E, de acordo com o desenvolvimento da trama, ela se faz mais presente na vida de Beatriz, sendo uma das principais responsáveis por fazer a terapeuta abrir os olhos e repensar algumas questões de sua vida.

Já a protagonista vivida por Maria Paula é intencionalmente água com açúcar, no estilo de típica mulher rica que tem medo de se arriscar e de se aventurar, o que a torna um pouco chata em determinados momentos da história. Isso talvez se dê por conta de um possível desconforto da atriz, que está encarando, pela primeira vez, o peso de ser uma protagonista no cinema.

Embora o elenco se encaixe bem na trama, não há como não dar o devido destaque à grande estrela do filme, Nicette Bruno. A veterana simplesmente rouba a cena com sua personagem extremamente autêntica, Elda, mãe de Beatriz. Para sermos honestos, a personagem é a única que faz jus ao título do filme. Ela é extremamente engajada com suas questões religiosas – logo em sua primeira aparição, ela está preparando uma novena na casa de Beatriz –, mas, ao mesmo tempo, reconhece a importância de aproveitar a vida ao máximo e fazer loucuras de vez em quando, como adotar uma iguana. Afinal, por que não? Elda é, com certeza, a melhor personagem do longa e não há como contestar isso.

Durante sua jornada de adaptação à separação e autodescobertas, Beatriz se vê em meio a situações em que jamais havia pensado, como, por exemplo, encontrar um novo amor em uma balada e participar um ritual xamânico conduzido por um líder com princípios um tanto quanto questionáveis. Em todas elas, Maria força um pouco a barra, mas nada que atrapalhe seu desempenho ou o percurso da história.

A adaptação cinematográfica de Doidas e Santas é divertida e mostra ao espectador uma nova perspectiva do que é a felicidade e o que ela representa na vida das pessoas. Os deslizes do longa não desvalorizam a premissa, que é leve e sem apelações. Além disso, o filme deixa claro que não tem a menor intenção de ser imperdível e cumpre bem o seu papel de fazer o público rir – embora não seja aquela comédia que vai fazer você dar uma boa gargalhada.

Saiba tudo o que rolou na coletiva de imprensa de Doidas e Santas